quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Arroz de frango no forno

Há uns tempos, fui alertado para as inconveniências que um bom arroz de pato caseiro pode representar. A começar, claro, pela apanha do dito cujo, que sendo uma ave hábil e escorregadia, obriga a procedimentos complexos, até que uma mão lhe cace o pescoço.
A parte de cegar o pato com umas luzes potentes bem instaladas num capacete de mineiro é a minha preferida.
Como sou duro de rins e não conheço mineiros que emprestem o referido capacete, costumo optar pelo frango, que está ali, no talho, mesmo à mão.
Esta receita de arroz de frango no forno é surpreendentemente bastante aromática e, ao mesmo tempo, simples de preparar.
O frango para este arroz é cozido num caldo aromatizado com uma uma cenoura, uma cebola, alho francês e um caldo de galinha.
Depois de cozido, é tempo de desfiá-lo e de reservá-lo. Portanto, meus senhores, mãos à obra! Enquanto o caldo em que o frango foi cozido continua a fervilhar, prepara-se um refogado com dois dentes de alho e uma cebola. Depois, quando a cebola do refogado fica translúcida, junta-se a medida de arroz (aí umas duas canecas), bem lavado e escorrido.
A seguir, salteia-se o arroz no refogado durante um bocadinho e junta-se o caldo a ferver (o dobro da medida de arroz) e, por fim a carne. Depois do arroz ter cozido, transfere-se tudo para um pirex untado com manteiga e colocam-se por cima algumas fatias de bacon.
Vai tudo ao forno, que já estava bem quente, para acabar de cozer e dourar à superfície.
No fim, para decorar e dar um saborzinho, nada como polvilhar a travessa com uns pickles cortados em pedacinhos.
Bom apetite!!!

domingo, 16 de dezembro de 2007

Panaceias e atum

Manifesto contra a ditadura do atum como solução contra todas as dúvidas gastronómicas à beira do almoço ou do jantar. Atenção, também, ao bacalhau e a outros que tais.

Uma das manifestações bastante comuns da panaceia tem a ver com a convicção dos profissionais de que com a sua visão teórica do mundo irão resolver todos os problemas da humanidade.
Se perguntar a um médico como se presta ele a varrer as desgraças humanas da face da Terra, por certo que, em menos de nada, lhe será descrito um programa de prevenção das doenças cardiovasculares ou de educação para a saúde. No fim, enquanto passa o prestimoso e indispensável recibo, o senhor doutor ainda acrescentará que a sua solução será quanto baste para erradicar as doenças em apenas duas gerações.
Fale-se com um economista sobre como faria ele face ao problema da felicidade, já que hoje em dia parece ela mais problemática do que a infelicidade, e afiançará o dito cujo que não haverá nada como a sua tríade magnífica: crescimento económico, redução dos impostos e aumento do consumo. Para mim, que não percebo grande coisa da matéria, poderia esse ou outro economista apresentar-me estes três termos noutra ordem ou até um pacote com outros três chavões da área financeira que eu aceitaria, com a mesma bonomia e crença num futuro radioso. Para dizer a verdade, de acordo com as grandes teorias da economia, nem sei se crescimento económico, redução de impostos e aumento do consumo serão conjugáveis num mesmo cenário temporal. Mas isso já é problema meu, pois segundo um certo bancário, nem consigo ler extractos da minha conta corrente. Adiante.
A panaceia no seu pior nem é propriamente esta convicção corporativa que faz um conhecimento profissional valer sobre a utilidade de todos os outros. O seu lado verdadeiramente maléfico revela-se no modo como ela usualmente se organiza, pois estou certo que sua sequência é sempre a mesma. Invarivelmente, começa a panaceia a manifestar-se na contratualização de um crédito. Claro que nem todos os créditos são daninhos da mesma maneira e os que mais contribuem para a entrada na etapa seguinte da panaceia são aqueles fáceis, que pelo facto de chegarem pela internet ou pelo telefone já seriam suficientemente suspeitos para que metade das pessoas desconfiasse dos seus méritos. Quando o dinheiro volta a faltar para o essencial, tal e qual como dantes, com a agravante de agora ainda ter de se pagar os juros exorbitantes, não há problema. Arranja-se outra panaceia qualquer. Os mais entendidos costumam optar por complexos vitamínicos ou aqueles produtos com toneladas de l-casei imunitass ou bifidus activus, que aumentam as defesas imunitárias. Essa é uma daquelas soluções mágicas que, por teimosia, não é posta ao serviço do bem-comum. É que a acreditar em semelhante poder e tão invejável eficácia na produção de defesas, dispensariam bem os nossos polícias de usar coletes à prova de bala. Já pensaram bem se todos os membros das forças policiais tomassem um iogurte destes, todos os dias, logo pela alvorada, o dinheiro que já não se tinha poupado a este país? Ora aí estava uma maneira astuta e aceitável de reduzir o défice público.
Quando não resulta o complexo vitamínico ou o iogurte maravilha, chega-se à etapa do corte cego. Contam-se os pretos no fundo da carteira, revista-se o fundo dos bolsos uma e outra vez e não se vislumbra outra solução que não seja a de assegurar que o dinheiro dá, pelo menos, para a conta dos anti-depressivos ao fim do mês. Consta que o comprimido diário é quase tão poderoso como o Dr. Phil, com a vantagem de não implicar tristes encenações de irresolúveis dramas familiares, diante das câmaras televisivas. Acresce que a sua utilização até é fácil. Basta tirá-lo da carteira e empurrá-lo pela goela abaixo com um copinho de água, que pode ser da torneira, o que pelo menos por esse lado sai bastante barato. Se nem com anti-depressivos a coisa lá for, há duas soluções possíveis. A mais drástica costuma ser arranjar também ansiolíticos e fazer um belo cocktail antes do jantar...com água, entenda-se, sempre com água, porque não há guito para mais. A outra sai mais cara e também mais difícil para quem está na mó de baixo, e consistirá em ir com regularidade ao ginásio. Com um orçamento curto, entra-se na necessária simplificação. Em vez de ir ao ginásio ponha-se a caminhar, a andar a pé, entenda-se, ali pelo molhe da marina afora ou por essas canadas acima e abaixo. Para aqueles que se aborrecem com as caminhadas, não há problema, porque na Terceira sempre pode obrigar-se a correr pelos caminhos dessas freguesias, à frente dos galhos de um touro.
Tenho sido avesso a complexos vitamínicos e aos anti-depressivos, mas um dia hei-de experimentar, de preferência tomados ao mesmo tempo, antes de me pôr a correr à frente dos galhos de um touro. Temo é que essa não seja a solução indicada para as minhas maleitas, até porque no que toca a touradas, não sou particular entusiasta. Já as caminhadas, até as faço de vez em quando, mas se calhar tenho de prometer que se não as fizer regularmente, para o ano tenho de ir a pé à Serreta, o que será bem mais penoso. O que tenho mesmo de evitar é a minha tendência para resolver toda e qualquer refeição com atum. É verdade que até tento prepará-lo das mais variadas maneiras, em saladas, numa maionese, com massa ou com um belo molho de tomate. Acontece que enquanto me acomodo a essa tendência, mais e mais alastra a minha preguiça imaginativa. E como a preguiça imaginativa costuma legitimar outras panaceias, tenho de me convencer que quanto mais usar atum para resolver as minhas refeições, mais perto me encontro de recorrer aos anti-depressivos. Meus amigos, nem mais nem menos, estamos perante a ameaça de um ciclo vicioso. Acreditem, não tenho nada contra os pescadores que apanham o atum no alto-mar ou a indústria transformadora, que faz conservas de grande qualidade. Não é contra eles que tenho de me insurgir, pois cumprem apenas com o seu dever. É contra mim mesmo que tenho de me rebelar. Já agora, que o Natal se aproxima, tenho de tomar cuidado com outras panaceias gastronómicas. Se calhar começo por evitar o bacalhau, não acham?

domingo, 11 de novembro de 2007

E agora?

De como um parâmetro faz toda a diferença, nomeadamente numas análises de laboratório. Porque nem sempre os mais doutos e saudáveis conselheiros são os mais velhos.


Todos temos uma maneira muito própria de lidar com a mortalidade.Uns encontram maneiras de a ridicularizar com anedotas e trejeitos, alguns são hábeis na sua minimização, preferindo decompô-la em decassílabos poéticos, a maior parte, na qual me incluo, simplesmente evita dela falar ou nela pensar. Sabemos quão súbita ela pode ser, temos a certeza de que as suas consequências são irreversíveis e devastadoras, mas tendemos sempre a acreditar em alternativas.
Felizmente que nem sempre a morte se manifesta com virulência, obrigando-nos a bater continência e obedecer às suas ordens. Costuma ela ser insidiosa, uma pista aqui, um vestígio acolá. Afinal, responde ela ao preceito proverbial que nem sempre se lhe reconhece: quem te avisa teu amigo é.
Tenho tido o meu quinhão de avisos. É certo que deles não se têm feito editais requintados e passíveis de afixação pública, de acordo com as exigências legais. Agora que tenho sido alertado para moderar certos e determinados excessos, isso não posso negar.
O mais recente veio certificado por um laboratório, muito competente, com certeza, por solicitação de um médico que estive para consultar vai para quase dois anos. Assim que enchi o peito como um balão e me pus à sua frente debitando as minhas queixas alérgicas, já sabia que me iriam ser recomendadas análises ao sangue. Pois muito bem, que assim seja, disse eu cheio de coragem, como se já não soubesse que estava essa consequência ditada pelo protocolo médico para semelhantes situações. Não contente com a simulação patética, pois os meus dotes congénitos para a representação são escassos, fingi que era um daqueles pacientes preoupados, sem ser hipocondríaco, que respeita todas as campanhas públicas que comecem pela palavra prevenção. Foi imbuído desse fingimento que lá pedi ao senhor doutor que, já agora, me passasse uma requisição para uma análise geral ao sangue. Ele não rejubilou, mas lá me fez a vontade com profissionalismo, preenchendo todos os quadriculados necessários e assinando no fim do formulário, com uma letra revolta e incompreensível.
Daí a dias soube dos resultados. Era um homem saudável (e talvez nunca tivesse deixado de ser) e as minhas alergias eram inespecíficas. Bastava-me fazer a medicação de acordo com os ditames sazonais, para combater a dita maleita. Era simples, pensei eu, enquanto alguns animais mudavam o pêlo e a vegetação de folha caducada se despia ou, pelo contrário, encontrava um novo vigor, eu tomava diariamente o meu anti-histamínico. Nada mais fácil. Quando pensava que desta me tinha safado como aqueles alunos espertalhões, ou seja, com boa nota e sem muito esforço, ficou um aviso, do outro lado da linha: cuidado com o colesterol. Consultei novamente os resultados e lá estava o motivo do alerta. Realmente, ainda que fosse por quatro valores, o meu colesterol estava acima do patamar superior admitido.
Desde que descobri esse indício fugaz de degenerescência, tenho dado comigo a vaguear pelos baldios insanos das promessas que ficarão por cumprir, muito antes sequer da época em que costumam ser pródigos semelhantes ensejos, lá para os lados da passagem de ano. Ainda não me pus a analisar na prateleira do supermercado os produtos supostamente milagrosos, aqueles de natureza light ou que exigem obstinação no seu consumo, pois tem que ser diário e regular, sem que ninguém veja nisto um vício. Porém, em casa já decidi começar a cortar nas gorduras e nos molhos. Bom, quanto à primeira parte da minha decisão, nem é difícil cumprir com ela, o pior será renunciar aos molhos. Também já me pus a pensar em fazer exercício. Primeiro consultei a balança, vi que menos cinco quilinhos não faziam mal a ninguém e daí a lançar-me nesse empreendimento foi um ápice. Ainda não saí da fase de projecto, como aliás acontece a muitas obras neste país, mas tenho a dizer que tenho enfrentado algumas dificuldades. Até gosto de desporto, mas para mim o exercício tem de ser colectivo e posto ao serviço de um objectivo comum (um golo, de preferência). Este é um problema que ainda tenho de resolver.
Tenho, no entanto, de confessar que nem tem sido a minha tendência para promessas e devaneios que me tem constrangido mais em toda esta situação, mas sim umas quantas contradições. A mais recente, e a que se vem tornando mais comum, sucedeu ainda no outro dia, numa festa de aniversário. Estávamos todos por ali na sala, em redor de uma mesa tentadora, de uma tarte de côco a um pudim de maracujá estava tudo com um óptimo aspecto, e de repente dou comigo a inspeccionar todos os ângulos da referida selecção de doces, com a atenção demorada e obsessiva de um explorador que faz um trabalho para a National Geografic. Pois bem, ao fim de um bocado tive de justificar perante a audiência, que já me olhava com uma certa estranheza, que tinha de reduzir os impactos negativos da sobremesa. Como permaneceram todos nas trevas da ignorância, lá troquei por miúdos e disse que o médico me avisara dos perigos do meu colesterol um pouco elevado. Bom, depressa se organizou um painel de especialistas, quase todos sobreviventes da mesma experiência, que dos cuidados alimentares à eficácia de produtos naturais, como os comprimidos de gérmen de trigo, me aconselhou com a convicção de um grupo de auto-ajuda. Tantas e tão variadas recomendações seriam, por certo, convincentes e até bem-vindas se, ao mesmo tempo que eram debitadas, não tivessem as ditas senhoras o pratinho de sobremesa a transbordar de três e quatro variedades de doces e eu me tivesse de contentar com uma fatia de um pudim de noz. Pelos vistos não disfarcei os olhar reprovador. A resposta foi daquelas que se traz no bolso e tida por eficaz: só faço destes pecados em dias de festa.
Tenho de dizer que em poucas situações me senti tão ridicularizado na minha vida. Ali estava eu, impedido por conselho médico em insistir em determinadas parvoíces e em meu redor, aquelas senhoras com mais trinta e quarenta anos do que eu debitavam soluções rápidas e mágicas, enquanto cometiam os seus pecados veniais e de ocasião. Por isso, já decidi: quanto à alimentação hei-de fazer o que puder e o exercício será passatempo, em vez de uma preocupação com a saúde. Quanto à vergonha que tenho sentido por me terem diagnosticado colesterol, vou inscrever essa minha nova condição no currículo. Tenho a certeza que alguém há-de mostrar um respeito reverente pela minha nova condição de mortal.

sábado, 27 de outubro de 2007

Bróculos com molho de queijo fresco

Ando particularmente arredado de muitas coisas que são do meu apreço. Entre alguns dos passatempos muito sérios em que não me tenho empenhado, um é a culinária. Ando com uma certa saudade de dar a devida utilidade às panelas aqui por casa, seja por via da curiosidade ou então do mais profundo denodo (quando se trata de uma receita já mais dominada e que requer um certo brio para que saia a preceito, como de costume).
De maneiras que esta semana não me ocorre nada melhor do que um acompanhamento jeitoso para um grelhado, seja ele peixe ou carne, fácil de fazer, mas a que não falta um certo requinte. É esse, aliás, o destino das coisas simples, são ao mesmo tempo leves e perfeitas.
Quanto às minhas lamentações, vou ter que arranjar forma de as remeter ao esquecimento. Prometo que vou tentar!

Lavam-se os bróculos depois de cortados. Cozem-se com um pouco de sal. À parte, numa frigideira, derrete-se um pouco de manteiga. Assim que esta derreta, junta-se queijo fresco creme e espera-se que derreta também. Quando a manteiga e o queijo fresco creme estiverem bem ligados, tempera-se com umas gotinhas de limão. De seguida, cobre-se os bróculos com o molho e está pronto a servir.
Para aprimorar a receita, nada como juntar ao molho um punhado de frutos secos (amêndoas ou pinhões). Fica delicioso.

Dá na televisão, mas é na Sporttv

De como a mesma palavra pode expressar ideias diferentes e como outras, pequeninas e singelas, alteram o final de uma história. Algures, os canais codificados são esconjurados.

Quando aprendi na escola as conjunções, tive a nítida sensação que a gramática, para mim, era assunto encerrado. Finalmente estava ali um ensinamento absoluto, que condensava todos os anteriores, ao ponto de lhes retirar importância ou novidade. Essa sensação não era inédita. Já tinha passado pelo mesmo quando no segundo ciclo aprendi a fazer as árvores que apartavam o sujeito dos respectivos predicados e complementos, se por acaso este tivesse o mérito de os mostrar. O mesmo sucedeu quando, na matemática, dominei o teorema de pitágoras ou as enaquações. Contas feitas, as da matemática e as da vida, o deslumbramento foi algo intrínseco a tantas descobertas que, sempre que uma se impunha, logo eu pensava que essa era, porventura, aquela suprema, que condensava todos os enigmas da criação do mundo.
No caso particular das conjuções, pareceu-me sobretudo brilhante, e ao mesmo tempo aterrador, que umas pequeninas palavras colocadas entre duas orações pudessem sintetizar com aquele desembaraço tantas emoções e peripécias. Daí a perceber um jogo de fatalidades nos exercícios que a professora de português nos mandava para casa não demorou muito. Com a ligeireza, direi mesmo a displicência de uma escolha fortuita, tratava eu de ir a uma tabela que agrupava as conjunções em copulativas, adversativas, conclusivas, disjuntivas e explicativas e logo me punha a inventar catástrofes ou finais felizes. Creio que essa foi a primeira e única vez que me senti poderoso. Mas convenhamos que era fácil, tratava-se de uma simples luta entre ímpetos adolescentes e um caderno de argolas pautado, ainda em branco.
Ensinou-me essa experiência muita coisa, a começar pelos rigores gramaticais. Felizmente que não se ficou por aí a lição, se bem que a professora, uma mulher denodada, com certeza, como tantos outros professores, não estivesse verdadeiramente empenhada em que retirasse conclusões morais de matéria tão inócua. A verdade é que acabei por fazê-lo, não tanto pelo seu empenho no meu domínio correcto da língua, mas antes porque se multiplicaram os exemplos à minha volta que me ajudaram a elaborar semelhantes raciocínios.
A minha labuta interna no que ao uso de conjuções diz respeito tem sido todo posto na contradição entre as copulativas e as adversativas. Uso as primeiras e vejo os opostos a dar alegramente as mãos, com juras de fidelidade e promessas de ajuda mútua, até ao ponto final. Uso as segundas, e felizmente vejo um desacordo, uma ligeira troca de argumentos, talvez um duelo de cavalheiros, com a respectiva escolha de armas e um ponto de exclamação a condizer. Se vejo as pessoas insistirem nas conjunções copulativas, começo a suspeitar das suas verdadeiras intenções e logo me convenço que há por ali uma ditadura de politicamente correcto. Se, porventura, vejo a repetição mecânica das conjunções adversativas, convenço-me que se acumula, rapidamente, um gosto congénito pela contradição persistente, o que volta a aborrecer-me.
Como algo em excesso não é um problema novo e as suas consequências são muitas e variadas, embora ultimamente só se fale na obesidade, vejo que o meu fascínio pelas conjuções não se prenderá, também, com o facto de uns serem mais solidários e outros mais contraditórios. O que me causa uma certa perplexidade é quando a conjução é usada, mas o sentido da frase se despista por um atalho qualquer.
O exemplo bem claro do que digo é aquele que transcrevi para o título: o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv. Ora bem, postas numa contenda entre si, por força da artimanha daquele mas, o interlocutor que se debata com semelhante afirmação e que queira percebê-la em toda a sua extensão vê-se um tanto confundido. É que assim enunciada, esta afirmação põe-nos perante um primeiro paradoxo: ou a televisão não é televisão ou então é a Sporttv que não o é, pois a primeira não pode ser o contrário da segunda. Mas mais alcança esta análise fria, à luz de pressupostos gramaticais, tabelas lógicas e outros tantos princípios que se forem inventando para pôr ordem nesta nossa cabecinha. É que poderei eu ou qualquer outra pessoa ser também tentado a pensar que esta frase significa que o jogo dá na televisão, mas que esta por si só, canal generalista, ao vivo e a cores, como alguns se contentavam até há uns tempos, já não basta. Televisão a sério, como dever ser, é a Sporttv.
O que vale é que a comunicação é muito mais que palavras. O timbre, a disposição dos rugas, a própria dilatação das pupilas denuncia logo o que queremos verdadeiramente dizer. A frase em causa, do ponto de vista lógico, não poderia ser menos certeira, mas o que se pretende dizer, isso aí é do domínio comum, universal, mesmo. Quando alguém se põe a dizer que o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv, a entoação tristonha significa que lá se vai encostar a orelha outra vez ao transístor ou então que é preciso rumar ao café e ser bafejado pela sorte de o receptor estar ligado no jogo que se quer ver na Sporttv 1 e não a partida que à mesma hora se joga na Sporttv 2. Tenho a nítida sensação que vou ouvir o mesmo comentário mais vezes. Aliás, estou mesmo certo que o vou repetir com alguma frequência. Ainda bem que, por enquanto, somos uma maioria.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

receita da semana - frango assado no forno com molho de mostarda

Esta é talvez uma das receitas que mais despertou em mim a veia culinária. Claro que por aqui há dedo da mãezinha, que soube muito bem "desviar-me" para os lados da cozinha. O seu segredo: cozinhava (e cozinha) bem e convidava-me para aqueles lados da casa com os aromas que as suas mãos sabem inventar.

Esta receita é daquelas que exige paciência, não por ser difícil, mas porque o segredo está numa cozedura lenta, paciente e bem assistida, como se verá.
Começa-se por esfregar os frangos inteiros com sal grosso. Depois de estarem bem massajados, coloca-se um caldo de galinha e meio limão na cavidade de cada frango, de onde se retiram os miúdos (que depois podem ficar para a canja).
Em seguida, os frangos são regados com o molho de mostarda. Para cada dois frangos, o molho consiste em meia barra de mateiga, pelo menos uma cabeça de alho, uma folha de louro, massa malagueta a gosto e, claro, mostarda (um a dois frascos). Estes ingredientes devem, previamente, ir ao lume, até a manteiga ligar com a mostarda.
O molho não deve ser colocado todo de uma vez. Ao longo da cozedura, é preciso ir regando os frangos à medida que estes vão sendo virados, para assarem bem de um lado e de outro.
Ao fim de, pelo menos, duas horas (talvez mais um pouco), os frangos estão prontos a servir.

Nota 1: Será importante não deixar o frango num tabuleiro do forno que esteja muito próximo do lume, pois o molho tem tendência a secar muito rapidamente, acabando mesmo por queimar.

Nota 2: Para acompanhar vale tudo. Sugiro o arroz branco (escolha óbvia) mas um puré de batata, com queijo parmesão, não fica nada mal na fotografia.

Intimidades

De como o conhecimento mútuo não pode ser mensurado apenas pelo tempo. Os reducionistas dirão que é apenas uma questão de tomates. E vai daí, talvez seja.

Uma das tarefas que mais pôs em causa a minha permanência na escola foi o picotado. Nunca me dei com a exigência de reduzir as margens de brinquedos, bonecos sorridentes e frutas gordas e sumarentas a uma profusão de pontos precisos, furadinhos uns atrás dos outros. Picotar as extremidades do desenho ou da figura ainda era o menos, pois na primeira parte dessa tarefa um tanto meticulosa para o atabalhoamento dos meus seis anos, até nem em saía mal. O desenho ficava bem recortadinho, pronto a ser arrancado ao resto do papel que no fim daquela árdua façanha restaria no canto da carteira como se fosse a pele enjeitada de um animal.
O pior era quando a minha destreza canhota, tanto a manual como a dos instintos, se punha a desfazer o picotado propriamente dito. O descalabro que logo se reunia valia-me as mais veementes reprimendas por parte das minhas professoras, indignadas com a minha falta de jeito para as artes manuais. O pior nem era ouvir aqueles raspanetes, pois eram perfeitamente justificados. Bem vistas as coisas, talvez ainda fossem demasiado brandos, embora não creia que juntar-lhes virulência pudesse ter despertado em mim qualquer ímpeto artístico. O pior era mesmo o sentimento de culpa por todos os dias cometer uma qualquer atrocidade. Se não era um peixe que ficava de guelra palpitante e olho lancinado de dor, porque lhe arrancara uma barbatana, era uma menina que levava as mãos à cara para esconder a vergonha de quem tinha acabado de ficar sem uma trança. O meu colega do lado, já não lembro bem quem, ficava a rir-se de mim e da menina.
Eu e esse meu colega do lado crescemos, mas não acredito que ele se tenha tornado mais sensível. Passado tanto tempo, vivo mais descansado por saber que um dia, quando tiver um filho, ele não vai ter de picotar figuras e desenhos na escola. Algures, o esclarecimento dos pedagogos percebeu que os picotados eram uma das mais inúteis tarefas escolares. Felizmente que há maneiras e maneiras de picotar e que umas são bem mais curiosas, ainda que sejam, também, mais difíceis de dominar.
Todos sabemos de uns quantos felizardos que sabem muito bem definir as margens dos nossos interesses e manias, que logo nos topam os defeitos ou as virtudes, como se vissem em nós aquelas instruções dos pacotes ou das margens dos antigos cupões dos concursos, com um tracejado à frente dos dois bicos de uma tesoura, a assinalar por onde se deve recortar. Alguns são mesmos mestres em vencer as nossas defesas ou uma certa dose de timidez, para logo nos encontrar a abertura fácil da alma.
Tenho conhecido algumas dessas pessoas que o venerando senso-comum insiste em reconhecer como aqueles seres capazes de, em menos de nada, nos fazer um raio-x. Ora, perante esta definição simples da inteligência emocional costumo levantar algumas objecções, primeiro porque rejeito tudo quanto faça lembrar o cheiro a éter, mesmo que vagamente, depois porque aquela sensação de estar tão despido que até me vêem os ossos também não me agrada particularmente. Além disso, é como se a responsabilidade dos encontros fortuitos fosse apenas minha, quando afinal, nem que seja por uma conjugação de acasos, a outra pessoa também lá esteve e se predispôs a analisar-me.
O sucesso causado por uma primeira impressão é proporcional à sensação de, por alguma razão, logo ali, olhos nos olhos, sentirmos que se criou uma intimidade repentina, mas com fundamento. É nessas alturas que alguém decide seguir o nosso picotado e nos descobre a tal abertura fácil. Daí em diante, é de esperar que façam gato-sapato de nós.
Há uma senhora vendedora no mercado que soube encontrar esse meu sistema de abertura fácil. Daí a fidelizar-me como cliente da sua banca foi o tempo do pagamento, do respectivo troco e das promessas de regresso no fim-de-semana seguinte. Tudo sucedeu num Sábado de manhã em que andava a rondar a banca da vendedora. Sei que tinha uma listinha amarrotada no bolso ou nas traseiras da minha memória, mas o meu intuito verdadeiro e mais elaborado era o de comprar tomate. A fruta poderia ter a calibragem mais variada, os legumes podiam ser mais ou menos frescos, mas já o tomate, bom, esse tinha de corresponder a requisitos bem precisos. Como o queria assar no forno, sabia que tinha de estar bem maduro e que tinha de ser bem redondo para ficar bonito na travessa. Andava eu por ali a cirandar havia já um bom bocado e a senhora olhava-me atentamente, na azáfama do atendimento aos sucessivos fregueses. Percebi que ela estava à espera de encontrar uma nesga de tempo para me dizer algo, pelo que me demorei mais um bocado, entre a análise clínica a um raminho de salsa e a verificação à consistência de um par de pêssegos. Assim que pôde, o indicador da senhora chamou-me com um ar descarado de conluio. Eu hesitei, mas depois de farolar em redor para ver se ninguém nos topava, tornou ela a chamar-me. Como não via perigo, mas também não reconhecia necessidade de tanto segredo, continuei um bocado indeciso. Por fim, lá avancei e assim que cheguei ao outro lado da bancada, logo a vendedora me perguntou retoricamente, ao puxar de um cesto escondido sob a bancada:
- É isto que procura, não é verdade?
Sei que textualmente, a pergunta não foi esta, mas isso pouco interessava. O que realmente interessava é que lá estava ele, redondinho, bem vermelho, pronto a ir ao forno, o tomate por que eu ansiava. A senhora sorriu triunfante, certa que o seu gesto fora preciso. Eu, por mim, acenei com a cabeça, já depois de ter posto um olho nas redondezas, para me certificar, também, que ninguém nos vigiava. No fim, agradeci, mas contas feitas, senti que continuava em dívida com a senhora. Essa tinha sido, afinal, a sua maior conquista. Daí em diante, tornei-me cliente assíduo daquela banca de mercado, para saldar esse e outros favores de uma intimidade simples, mas eficaz, recortada com precisão no picotado dos meus insondáveis desejos. Ultimamente, a conta por pagar acumulou juros. Não tenho lá ido, como era hábito ao Sábado de manhã. Vou arranjando desculpas, umas mais plausíveis, outras sem sentido. No Inverno vou voltar a querer tomate do bom. Nessa altura, tenho a certeza que vou voltar.