Há uns tempos, fui alertado para as inconveniências que um bom arroz de pato caseiro pode representar. A começar, claro, pela apanha do dito cujo, que sendo uma ave hábil e escorregadia, obriga a procedimentos complexos, até que uma mão lhe cace o pescoço.
A parte de cegar o pato com umas luzes potentes bem instaladas num capacete de mineiro é a minha preferida.
Como sou duro de rins e não conheço mineiros que emprestem o referido capacete, costumo optar pelo frango, que está ali, no talho, mesmo à mão.
Esta receita de arroz de frango no forno é surpreendentemente bastante aromática e, ao mesmo tempo, simples de preparar.
O frango para este arroz é cozido num caldo aromatizado com uma uma cenoura, uma cebola, alho francês e um caldo de galinha.
Depois de cozido, é tempo de desfiá-lo e de reservá-lo. Portanto, meus senhores, mãos à obra! Enquanto o caldo em que o frango foi cozido continua a fervilhar, prepara-se um refogado com dois dentes de alho e uma cebola. Depois, quando a cebola do refogado fica translúcida, junta-se a medida de arroz (aí umas duas canecas), bem lavado e escorrido.
A seguir, salteia-se o arroz no refogado durante um bocadinho e junta-se o caldo a ferver (o dobro da medida de arroz) e, por fim a carne. Depois do arroz ter cozido, transfere-se tudo para um pirex untado com manteiga e colocam-se por cima algumas fatias de bacon.
Vai tudo ao forno, que já estava bem quente, para acabar de cozer e dourar à superfície.
No fim, para decorar e dar um saborzinho, nada como polvilhar a travessa com uns pickles cortados em pedacinhos.
Bom apetite!!!
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
domingo, 16 de dezembro de 2007
Panaceias e atum
Manifesto contra a ditadura do atum como solução contra todas as dúvidas gastronómicas à beira do almoço ou do jantar. Atenção, também, ao bacalhau e a outros que tais.
Uma das manifestações bastante comuns da panaceia tem a ver com a convicção dos profissionais de que com a sua visão teórica do mundo irão resolver todos os problemas da humanidade.
Se perguntar a um médico como se presta ele a varrer as desgraças humanas da face da Terra, por certo que, em menos de nada, lhe será descrito um programa de prevenção das doenças cardiovasculares ou de educação para a saúde. No fim, enquanto passa o prestimoso e indispensável recibo, o senhor doutor ainda acrescentará que a sua solução será quanto baste para erradicar as doenças em apenas duas gerações.
Fale-se com um economista sobre como faria ele face ao problema da felicidade, já que hoje em dia parece ela mais problemática do que a infelicidade, e afiançará o dito cujo que não haverá nada como a sua tríade magnífica: crescimento económico, redução dos impostos e aumento do consumo. Para mim, que não percebo grande coisa da matéria, poderia esse ou outro economista apresentar-me estes três termos noutra ordem ou até um pacote com outros três chavões da área financeira que eu aceitaria, com a mesma bonomia e crença num futuro radioso. Para dizer a verdade, de acordo com as grandes teorias da economia, nem sei se crescimento económico, redução de impostos e aumento do consumo serão conjugáveis num mesmo cenário temporal. Mas isso já é problema meu, pois segundo um certo bancário, nem consigo ler extractos da minha conta corrente. Adiante.
A panaceia no seu pior nem é propriamente esta convicção corporativa que faz um conhecimento profissional valer sobre a utilidade de todos os outros. O seu lado verdadeiramente maléfico revela-se no modo como ela usualmente se organiza, pois estou certo que sua sequência é sempre a mesma. Invarivelmente, começa a panaceia a manifestar-se na contratualização de um crédito. Claro que nem todos os créditos são daninhos da mesma maneira e os que mais contribuem para a entrada na etapa seguinte da panaceia são aqueles fáceis, que pelo facto de chegarem pela internet ou pelo telefone já seriam suficientemente suspeitos para que metade das pessoas desconfiasse dos seus méritos. Quando o dinheiro volta a faltar para o essencial, tal e qual como dantes, com a agravante de agora ainda ter de se pagar os juros exorbitantes, não há problema. Arranja-se outra panaceia qualquer. Os mais entendidos costumam optar por complexos vitamínicos ou aqueles produtos com toneladas de l-casei imunitass ou bifidus activus, que aumentam as defesas imunitárias. Essa é uma daquelas soluções mágicas que, por teimosia, não é posta ao serviço do bem-comum. É que a acreditar em semelhante poder e tão invejável eficácia na produção de defesas, dispensariam bem os nossos polícias de usar coletes à prova de bala. Já pensaram bem se todos os membros das forças policiais tomassem um iogurte destes, todos os dias, logo pela alvorada, o dinheiro que já não se tinha poupado a este país? Ora aí estava uma maneira astuta e aceitável de reduzir o défice público.
Quando não resulta o complexo vitamínico ou o iogurte maravilha, chega-se à etapa do corte cego. Contam-se os pretos no fundo da carteira, revista-se o fundo dos bolsos uma e outra vez e não se vislumbra outra solução que não seja a de assegurar que o dinheiro dá, pelo menos, para a conta dos anti-depressivos ao fim do mês. Consta que o comprimido diário é quase tão poderoso como o Dr. Phil, com a vantagem de não implicar tristes encenações de irresolúveis dramas familiares, diante das câmaras televisivas. Acresce que a sua utilização até é fácil. Basta tirá-lo da carteira e empurrá-lo pela goela abaixo com um copinho de água, que pode ser da torneira, o que pelo menos por esse lado sai bastante barato. Se nem com anti-depressivos a coisa lá for, há duas soluções possíveis. A mais drástica costuma ser arranjar também ansiolíticos e fazer um belo cocktail antes do jantar...com água, entenda-se, sempre com água, porque não há guito para mais. A outra sai mais cara e também mais difícil para quem está na mó de baixo, e consistirá em ir com regularidade ao ginásio. Com um orçamento curto, entra-se na necessária simplificação. Em vez de ir ao ginásio ponha-se a caminhar, a andar a pé, entenda-se, ali pelo molhe da marina afora ou por essas canadas acima e abaixo. Para aqueles que se aborrecem com as caminhadas, não há problema, porque na Terceira sempre pode obrigar-se a correr pelos caminhos dessas freguesias, à frente dos galhos de um touro.
Tenho sido avesso a complexos vitamínicos e aos anti-depressivos, mas um dia hei-de experimentar, de preferência tomados ao mesmo tempo, antes de me pôr a correr à frente dos galhos de um touro. Temo é que essa não seja a solução indicada para as minhas maleitas, até porque no que toca a touradas, não sou particular entusiasta. Já as caminhadas, até as faço de vez em quando, mas se calhar tenho de prometer que se não as fizer regularmente, para o ano tenho de ir a pé à Serreta, o que será bem mais penoso. O que tenho mesmo de evitar é a minha tendência para resolver toda e qualquer refeição com atum. É verdade que até tento prepará-lo das mais variadas maneiras, em saladas, numa maionese, com massa ou com um belo molho de tomate. Acontece que enquanto me acomodo a essa tendência, mais e mais alastra a minha preguiça imaginativa. E como a preguiça imaginativa costuma legitimar outras panaceias, tenho de me convencer que quanto mais usar atum para resolver as minhas refeições, mais perto me encontro de recorrer aos anti-depressivos. Meus amigos, nem mais nem menos, estamos perante a ameaça de um ciclo vicioso. Acreditem, não tenho nada contra os pescadores que apanham o atum no alto-mar ou a indústria transformadora, que faz conservas de grande qualidade. Não é contra eles que tenho de me insurgir, pois cumprem apenas com o seu dever. É contra mim mesmo que tenho de me rebelar. Já agora, que o Natal se aproxima, tenho de tomar cuidado com outras panaceias gastronómicas. Se calhar começo por evitar o bacalhau, não acham?
Uma das manifestações bastante comuns da panaceia tem a ver com a convicção dos profissionais de que com a sua visão teórica do mundo irão resolver todos os problemas da humanidade.
Se perguntar a um médico como se presta ele a varrer as desgraças humanas da face da Terra, por certo que, em menos de nada, lhe será descrito um programa de prevenção das doenças cardiovasculares ou de educação para a saúde. No fim, enquanto passa o prestimoso e indispensável recibo, o senhor doutor ainda acrescentará que a sua solução será quanto baste para erradicar as doenças em apenas duas gerações.
Fale-se com um economista sobre como faria ele face ao problema da felicidade, já que hoje em dia parece ela mais problemática do que a infelicidade, e afiançará o dito cujo que não haverá nada como a sua tríade magnífica: crescimento económico, redução dos impostos e aumento do consumo. Para mim, que não percebo grande coisa da matéria, poderia esse ou outro economista apresentar-me estes três termos noutra ordem ou até um pacote com outros três chavões da área financeira que eu aceitaria, com a mesma bonomia e crença num futuro radioso. Para dizer a verdade, de acordo com as grandes teorias da economia, nem sei se crescimento económico, redução de impostos e aumento do consumo serão conjugáveis num mesmo cenário temporal. Mas isso já é problema meu, pois segundo um certo bancário, nem consigo ler extractos da minha conta corrente. Adiante.
A panaceia no seu pior nem é propriamente esta convicção corporativa que faz um conhecimento profissional valer sobre a utilidade de todos os outros. O seu lado verdadeiramente maléfico revela-se no modo como ela usualmente se organiza, pois estou certo que sua sequência é sempre a mesma. Invarivelmente, começa a panaceia a manifestar-se na contratualização de um crédito. Claro que nem todos os créditos são daninhos da mesma maneira e os que mais contribuem para a entrada na etapa seguinte da panaceia são aqueles fáceis, que pelo facto de chegarem pela internet ou pelo telefone já seriam suficientemente suspeitos para que metade das pessoas desconfiasse dos seus méritos. Quando o dinheiro volta a faltar para o essencial, tal e qual como dantes, com a agravante de agora ainda ter de se pagar os juros exorbitantes, não há problema. Arranja-se outra panaceia qualquer. Os mais entendidos costumam optar por complexos vitamínicos ou aqueles produtos com toneladas de l-casei imunitass ou bifidus activus, que aumentam as defesas imunitárias. Essa é uma daquelas soluções mágicas que, por teimosia, não é posta ao serviço do bem-comum. É que a acreditar em semelhante poder e tão invejável eficácia na produção de defesas, dispensariam bem os nossos polícias de usar coletes à prova de bala. Já pensaram bem se todos os membros das forças policiais tomassem um iogurte destes, todos os dias, logo pela alvorada, o dinheiro que já não se tinha poupado a este país? Ora aí estava uma maneira astuta e aceitável de reduzir o défice público.
Quando não resulta o complexo vitamínico ou o iogurte maravilha, chega-se à etapa do corte cego. Contam-se os pretos no fundo da carteira, revista-se o fundo dos bolsos uma e outra vez e não se vislumbra outra solução que não seja a de assegurar que o dinheiro dá, pelo menos, para a conta dos anti-depressivos ao fim do mês. Consta que o comprimido diário é quase tão poderoso como o Dr. Phil, com a vantagem de não implicar tristes encenações de irresolúveis dramas familiares, diante das câmaras televisivas. Acresce que a sua utilização até é fácil. Basta tirá-lo da carteira e empurrá-lo pela goela abaixo com um copinho de água, que pode ser da torneira, o que pelo menos por esse lado sai bastante barato. Se nem com anti-depressivos a coisa lá for, há duas soluções possíveis. A mais drástica costuma ser arranjar também ansiolíticos e fazer um belo cocktail antes do jantar...com água, entenda-se, sempre com água, porque não há guito para mais. A outra sai mais cara e também mais difícil para quem está na mó de baixo, e consistirá em ir com regularidade ao ginásio. Com um orçamento curto, entra-se na necessária simplificação. Em vez de ir ao ginásio ponha-se a caminhar, a andar a pé, entenda-se, ali pelo molhe da marina afora ou por essas canadas acima e abaixo. Para aqueles que se aborrecem com as caminhadas, não há problema, porque na Terceira sempre pode obrigar-se a correr pelos caminhos dessas freguesias, à frente dos galhos de um touro.
Tenho sido avesso a complexos vitamínicos e aos anti-depressivos, mas um dia hei-de experimentar, de preferência tomados ao mesmo tempo, antes de me pôr a correr à frente dos galhos de um touro. Temo é que essa não seja a solução indicada para as minhas maleitas, até porque no que toca a touradas, não sou particular entusiasta. Já as caminhadas, até as faço de vez em quando, mas se calhar tenho de prometer que se não as fizer regularmente, para o ano tenho de ir a pé à Serreta, o que será bem mais penoso. O que tenho mesmo de evitar é a minha tendência para resolver toda e qualquer refeição com atum. É verdade que até tento prepará-lo das mais variadas maneiras, em saladas, numa maionese, com massa ou com um belo molho de tomate. Acontece que enquanto me acomodo a essa tendência, mais e mais alastra a minha preguiça imaginativa. E como a preguiça imaginativa costuma legitimar outras panaceias, tenho de me convencer que quanto mais usar atum para resolver as minhas refeições, mais perto me encontro de recorrer aos anti-depressivos. Meus amigos, nem mais nem menos, estamos perante a ameaça de um ciclo vicioso. Acreditem, não tenho nada contra os pescadores que apanham o atum no alto-mar ou a indústria transformadora, que faz conservas de grande qualidade. Não é contra eles que tenho de me insurgir, pois cumprem apenas com o seu dever. É contra mim mesmo que tenho de me rebelar. Já agora, que o Natal se aproxima, tenho de tomar cuidado com outras panaceias gastronómicas. Se calhar começo por evitar o bacalhau, não acham?
domingo, 11 de novembro de 2007
E agora?
De como um parâmetro faz toda a diferença, nomeadamente numas análises de laboratório. Porque nem sempre os mais doutos e saudáveis conselheiros são os mais velhos.
Todos temos uma maneira muito própria de lidar com a mortalidade.Uns encontram maneiras de a ridicularizar com anedotas e trejeitos, alguns são hábeis na sua minimização, preferindo decompô-la em decassílabos poéticos, a maior parte, na qual me incluo, simplesmente evita dela falar ou nela pensar. Sabemos quão súbita ela pode ser, temos a certeza de que as suas consequências são irreversíveis e devastadoras, mas tendemos sempre a acreditar em alternativas.
Felizmente que nem sempre a morte se manifesta com virulência, obrigando-nos a bater continência e obedecer às suas ordens. Costuma ela ser insidiosa, uma pista aqui, um vestígio acolá. Afinal, responde ela ao preceito proverbial que nem sempre se lhe reconhece: quem te avisa teu amigo é.
Tenho tido o meu quinhão de avisos. É certo que deles não se têm feito editais requintados e passíveis de afixação pública, de acordo com as exigências legais. Agora que tenho sido alertado para moderar certos e determinados excessos, isso não posso negar.
O mais recente veio certificado por um laboratório, muito competente, com certeza, por solicitação de um médico que estive para consultar vai para quase dois anos. Assim que enchi o peito como um balão e me pus à sua frente debitando as minhas queixas alérgicas, já sabia que me iriam ser recomendadas análises ao sangue. Pois muito bem, que assim seja, disse eu cheio de coragem, como se já não soubesse que estava essa consequência ditada pelo protocolo médico para semelhantes situações. Não contente com a simulação patética, pois os meus dotes congénitos para a representação são escassos, fingi que era um daqueles pacientes preoupados, sem ser hipocondríaco, que respeita todas as campanhas públicas que comecem pela palavra prevenção. Foi imbuído desse fingimento que lá pedi ao senhor doutor que, já agora, me passasse uma requisição para uma análise geral ao sangue. Ele não rejubilou, mas lá me fez a vontade com profissionalismo, preenchendo todos os quadriculados necessários e assinando no fim do formulário, com uma letra revolta e incompreensível.
Daí a dias soube dos resultados. Era um homem saudável (e talvez nunca tivesse deixado de ser) e as minhas alergias eram inespecíficas. Bastava-me fazer a medicação de acordo com os ditames sazonais, para combater a dita maleita. Era simples, pensei eu, enquanto alguns animais mudavam o pêlo e a vegetação de folha caducada se despia ou, pelo contrário, encontrava um novo vigor, eu tomava diariamente o meu anti-histamínico. Nada mais fácil. Quando pensava que desta me tinha safado como aqueles alunos espertalhões, ou seja, com boa nota e sem muito esforço, ficou um aviso, do outro lado da linha: cuidado com o colesterol. Consultei novamente os resultados e lá estava o motivo do alerta. Realmente, ainda que fosse por quatro valores, o meu colesterol estava acima do patamar superior admitido.
Desde que descobri esse indício fugaz de degenerescência, tenho dado comigo a vaguear pelos baldios insanos das promessas que ficarão por cumprir, muito antes sequer da época em que costumam ser pródigos semelhantes ensejos, lá para os lados da passagem de ano. Ainda não me pus a analisar na prateleira do supermercado os produtos supostamente milagrosos, aqueles de natureza light ou que exigem obstinação no seu consumo, pois tem que ser diário e regular, sem que ninguém veja nisto um vício. Porém, em casa já decidi começar a cortar nas gorduras e nos molhos. Bom, quanto à primeira parte da minha decisão, nem é difícil cumprir com ela, o pior será renunciar aos molhos. Também já me pus a pensar em fazer exercício. Primeiro consultei a balança, vi que menos cinco quilinhos não faziam mal a ninguém e daí a lançar-me nesse empreendimento foi um ápice. Ainda não saí da fase de projecto, como aliás acontece a muitas obras neste país, mas tenho a dizer que tenho enfrentado algumas dificuldades. Até gosto de desporto, mas para mim o exercício tem de ser colectivo e posto ao serviço de um objectivo comum (um golo, de preferência). Este é um problema que ainda tenho de resolver.
Tenho, no entanto, de confessar que nem tem sido a minha tendência para promessas e devaneios que me tem constrangido mais em toda esta situação, mas sim umas quantas contradições. A mais recente, e a que se vem tornando mais comum, sucedeu ainda no outro dia, numa festa de aniversário. Estávamos todos por ali na sala, em redor de uma mesa tentadora, de uma tarte de côco a um pudim de maracujá estava tudo com um óptimo aspecto, e de repente dou comigo a inspeccionar todos os ângulos da referida selecção de doces, com a atenção demorada e obsessiva de um explorador que faz um trabalho para a National Geografic. Pois bem, ao fim de um bocado tive de justificar perante a audiência, que já me olhava com uma certa estranheza, que tinha de reduzir os impactos negativos da sobremesa. Como permaneceram todos nas trevas da ignorância, lá troquei por miúdos e disse que o médico me avisara dos perigos do meu colesterol um pouco elevado. Bom, depressa se organizou um painel de especialistas, quase todos sobreviventes da mesma experiência, que dos cuidados alimentares à eficácia de produtos naturais, como os comprimidos de gérmen de trigo, me aconselhou com a convicção de um grupo de auto-ajuda. Tantas e tão variadas recomendações seriam, por certo, convincentes e até bem-vindas se, ao mesmo tempo que eram debitadas, não tivessem as ditas senhoras o pratinho de sobremesa a transbordar de três e quatro variedades de doces e eu me tivesse de contentar com uma fatia de um pudim de noz. Pelos vistos não disfarcei os olhar reprovador. A resposta foi daquelas que se traz no bolso e tida por eficaz: só faço destes pecados em dias de festa.
Tenho de dizer que em poucas situações me senti tão ridicularizado na minha vida. Ali estava eu, impedido por conselho médico em insistir em determinadas parvoíces e em meu redor, aquelas senhoras com mais trinta e quarenta anos do que eu debitavam soluções rápidas e mágicas, enquanto cometiam os seus pecados veniais e de ocasião. Por isso, já decidi: quanto à alimentação hei-de fazer o que puder e o exercício será passatempo, em vez de uma preocupação com a saúde. Quanto à vergonha que tenho sentido por me terem diagnosticado colesterol, vou inscrever essa minha nova condição no currículo. Tenho a certeza que alguém há-de mostrar um respeito reverente pela minha nova condição de mortal.
Todos temos uma maneira muito própria de lidar com a mortalidade.Uns encontram maneiras de a ridicularizar com anedotas e trejeitos, alguns são hábeis na sua minimização, preferindo decompô-la em decassílabos poéticos, a maior parte, na qual me incluo, simplesmente evita dela falar ou nela pensar. Sabemos quão súbita ela pode ser, temos a certeza de que as suas consequências são irreversíveis e devastadoras, mas tendemos sempre a acreditar em alternativas.
Felizmente que nem sempre a morte se manifesta com virulência, obrigando-nos a bater continência e obedecer às suas ordens. Costuma ela ser insidiosa, uma pista aqui, um vestígio acolá. Afinal, responde ela ao preceito proverbial que nem sempre se lhe reconhece: quem te avisa teu amigo é.
Tenho tido o meu quinhão de avisos. É certo que deles não se têm feito editais requintados e passíveis de afixação pública, de acordo com as exigências legais. Agora que tenho sido alertado para moderar certos e determinados excessos, isso não posso negar.
O mais recente veio certificado por um laboratório, muito competente, com certeza, por solicitação de um médico que estive para consultar vai para quase dois anos. Assim que enchi o peito como um balão e me pus à sua frente debitando as minhas queixas alérgicas, já sabia que me iriam ser recomendadas análises ao sangue. Pois muito bem, que assim seja, disse eu cheio de coragem, como se já não soubesse que estava essa consequência ditada pelo protocolo médico para semelhantes situações. Não contente com a simulação patética, pois os meus dotes congénitos para a representação são escassos, fingi que era um daqueles pacientes preoupados, sem ser hipocondríaco, que respeita todas as campanhas públicas que comecem pela palavra prevenção. Foi imbuído desse fingimento que lá pedi ao senhor doutor que, já agora, me passasse uma requisição para uma análise geral ao sangue. Ele não rejubilou, mas lá me fez a vontade com profissionalismo, preenchendo todos os quadriculados necessários e assinando no fim do formulário, com uma letra revolta e incompreensível.
Daí a dias soube dos resultados. Era um homem saudável (e talvez nunca tivesse deixado de ser) e as minhas alergias eram inespecíficas. Bastava-me fazer a medicação de acordo com os ditames sazonais, para combater a dita maleita. Era simples, pensei eu, enquanto alguns animais mudavam o pêlo e a vegetação de folha caducada se despia ou, pelo contrário, encontrava um novo vigor, eu tomava diariamente o meu anti-histamínico. Nada mais fácil. Quando pensava que desta me tinha safado como aqueles alunos espertalhões, ou seja, com boa nota e sem muito esforço, ficou um aviso, do outro lado da linha: cuidado com o colesterol. Consultei novamente os resultados e lá estava o motivo do alerta. Realmente, ainda que fosse por quatro valores, o meu colesterol estava acima do patamar superior admitido.
Desde que descobri esse indício fugaz de degenerescência, tenho dado comigo a vaguear pelos baldios insanos das promessas que ficarão por cumprir, muito antes sequer da época em que costumam ser pródigos semelhantes ensejos, lá para os lados da passagem de ano. Ainda não me pus a analisar na prateleira do supermercado os produtos supostamente milagrosos, aqueles de natureza light ou que exigem obstinação no seu consumo, pois tem que ser diário e regular, sem que ninguém veja nisto um vício. Porém, em casa já decidi começar a cortar nas gorduras e nos molhos. Bom, quanto à primeira parte da minha decisão, nem é difícil cumprir com ela, o pior será renunciar aos molhos. Também já me pus a pensar em fazer exercício. Primeiro consultei a balança, vi que menos cinco quilinhos não faziam mal a ninguém e daí a lançar-me nesse empreendimento foi um ápice. Ainda não saí da fase de projecto, como aliás acontece a muitas obras neste país, mas tenho a dizer que tenho enfrentado algumas dificuldades. Até gosto de desporto, mas para mim o exercício tem de ser colectivo e posto ao serviço de um objectivo comum (um golo, de preferência). Este é um problema que ainda tenho de resolver.
Tenho, no entanto, de confessar que nem tem sido a minha tendência para promessas e devaneios que me tem constrangido mais em toda esta situação, mas sim umas quantas contradições. A mais recente, e a que se vem tornando mais comum, sucedeu ainda no outro dia, numa festa de aniversário. Estávamos todos por ali na sala, em redor de uma mesa tentadora, de uma tarte de côco a um pudim de maracujá estava tudo com um óptimo aspecto, e de repente dou comigo a inspeccionar todos os ângulos da referida selecção de doces, com a atenção demorada e obsessiva de um explorador que faz um trabalho para a National Geografic. Pois bem, ao fim de um bocado tive de justificar perante a audiência, que já me olhava com uma certa estranheza, que tinha de reduzir os impactos negativos da sobremesa. Como permaneceram todos nas trevas da ignorância, lá troquei por miúdos e disse que o médico me avisara dos perigos do meu colesterol um pouco elevado. Bom, depressa se organizou um painel de especialistas, quase todos sobreviventes da mesma experiência, que dos cuidados alimentares à eficácia de produtos naturais, como os comprimidos de gérmen de trigo, me aconselhou com a convicção de um grupo de auto-ajuda. Tantas e tão variadas recomendações seriam, por certo, convincentes e até bem-vindas se, ao mesmo tempo que eram debitadas, não tivessem as ditas senhoras o pratinho de sobremesa a transbordar de três e quatro variedades de doces e eu me tivesse de contentar com uma fatia de um pudim de noz. Pelos vistos não disfarcei os olhar reprovador. A resposta foi daquelas que se traz no bolso e tida por eficaz: só faço destes pecados em dias de festa.
Tenho de dizer que em poucas situações me senti tão ridicularizado na minha vida. Ali estava eu, impedido por conselho médico em insistir em determinadas parvoíces e em meu redor, aquelas senhoras com mais trinta e quarenta anos do que eu debitavam soluções rápidas e mágicas, enquanto cometiam os seus pecados veniais e de ocasião. Por isso, já decidi: quanto à alimentação hei-de fazer o que puder e o exercício será passatempo, em vez de uma preocupação com a saúde. Quanto à vergonha que tenho sentido por me terem diagnosticado colesterol, vou inscrever essa minha nova condição no currículo. Tenho a certeza que alguém há-de mostrar um respeito reverente pela minha nova condição de mortal.
sábado, 27 de outubro de 2007
Bróculos com molho de queijo fresco
Ando particularmente arredado de muitas coisas que são do meu apreço. Entre alguns dos passatempos muito sérios em que não me tenho empenhado, um é a culinária. Ando com uma certa saudade de dar a devida utilidade às panelas aqui por casa, seja por via da curiosidade ou então do mais profundo denodo (quando se trata de uma receita já mais dominada e que requer um certo brio para que saia a preceito, como de costume).
De maneiras que esta semana não me ocorre nada melhor do que um acompanhamento jeitoso para um grelhado, seja ele peixe ou carne, fácil de fazer, mas a que não falta um certo requinte. É esse, aliás, o destino das coisas simples, são ao mesmo tempo leves e perfeitas.
Quanto às minhas lamentações, vou ter que arranjar forma de as remeter ao esquecimento. Prometo que vou tentar!
Lavam-se os bróculos depois de cortados. Cozem-se com um pouco de sal. À parte, numa frigideira, derrete-se um pouco de manteiga. Assim que esta derreta, junta-se queijo fresco creme e espera-se que derreta também. Quando a manteiga e o queijo fresco creme estiverem bem ligados, tempera-se com umas gotinhas de limão. De seguida, cobre-se os bróculos com o molho e está pronto a servir.
Para aprimorar a receita, nada como juntar ao molho um punhado de frutos secos (amêndoas ou pinhões). Fica delicioso.
De maneiras que esta semana não me ocorre nada melhor do que um acompanhamento jeitoso para um grelhado, seja ele peixe ou carne, fácil de fazer, mas a que não falta um certo requinte. É esse, aliás, o destino das coisas simples, são ao mesmo tempo leves e perfeitas.
Quanto às minhas lamentações, vou ter que arranjar forma de as remeter ao esquecimento. Prometo que vou tentar!
Lavam-se os bróculos depois de cortados. Cozem-se com um pouco de sal. À parte, numa frigideira, derrete-se um pouco de manteiga. Assim que esta derreta, junta-se queijo fresco creme e espera-se que derreta também. Quando a manteiga e o queijo fresco creme estiverem bem ligados, tempera-se com umas gotinhas de limão. De seguida, cobre-se os bróculos com o molho e está pronto a servir.
Para aprimorar a receita, nada como juntar ao molho um punhado de frutos secos (amêndoas ou pinhões). Fica delicioso.
Dá na televisão, mas é na Sporttv
De como a mesma palavra pode expressar ideias diferentes e como outras, pequeninas e singelas, alteram o final de uma história. Algures, os canais codificados são esconjurados.
Quando aprendi na escola as conjunções, tive a nítida sensação que a gramática, para mim, era assunto encerrado. Finalmente estava ali um ensinamento absoluto, que condensava todos os anteriores, ao ponto de lhes retirar importância ou novidade. Essa sensação não era inédita. Já tinha passado pelo mesmo quando no segundo ciclo aprendi a fazer as árvores que apartavam o sujeito dos respectivos predicados e complementos, se por acaso este tivesse o mérito de os mostrar. O mesmo sucedeu quando, na matemática, dominei o teorema de pitágoras ou as enaquações. Contas feitas, as da matemática e as da vida, o deslumbramento foi algo intrínseco a tantas descobertas que, sempre que uma se impunha, logo eu pensava que essa era, porventura, aquela suprema, que condensava todos os enigmas da criação do mundo.
No caso particular das conjuções, pareceu-me sobretudo brilhante, e ao mesmo tempo aterrador, que umas pequeninas palavras colocadas entre duas orações pudessem sintetizar com aquele desembaraço tantas emoções e peripécias. Daí a perceber um jogo de fatalidades nos exercícios que a professora de português nos mandava para casa não demorou muito. Com a ligeireza, direi mesmo a displicência de uma escolha fortuita, tratava eu de ir a uma tabela que agrupava as conjunções em copulativas, adversativas, conclusivas, disjuntivas e explicativas e logo me punha a inventar catástrofes ou finais felizes. Creio que essa foi a primeira e única vez que me senti poderoso. Mas convenhamos que era fácil, tratava-se de uma simples luta entre ímpetos adolescentes e um caderno de argolas pautado, ainda em branco.
Ensinou-me essa experiência muita coisa, a começar pelos rigores gramaticais. Felizmente que não se ficou por aí a lição, se bem que a professora, uma mulher denodada, com certeza, como tantos outros professores, não estivesse verdadeiramente empenhada em que retirasse conclusões morais de matéria tão inócua. A verdade é que acabei por fazê-lo, não tanto pelo seu empenho no meu domínio correcto da língua, mas antes porque se multiplicaram os exemplos à minha volta que me ajudaram a elaborar semelhantes raciocínios.
A minha labuta interna no que ao uso de conjuções diz respeito tem sido todo posto na contradição entre as copulativas e as adversativas. Uso as primeiras e vejo os opostos a dar alegramente as mãos, com juras de fidelidade e promessas de ajuda mútua, até ao ponto final. Uso as segundas, e felizmente vejo um desacordo, uma ligeira troca de argumentos, talvez um duelo de cavalheiros, com a respectiva escolha de armas e um ponto de exclamação a condizer. Se vejo as pessoas insistirem nas conjunções copulativas, começo a suspeitar das suas verdadeiras intenções e logo me convenço que há por ali uma ditadura de politicamente correcto. Se, porventura, vejo a repetição mecânica das conjunções adversativas, convenço-me que se acumula, rapidamente, um gosto congénito pela contradição persistente, o que volta a aborrecer-me.
Como algo em excesso não é um problema novo e as suas consequências são muitas e variadas, embora ultimamente só se fale na obesidade, vejo que o meu fascínio pelas conjuções não se prenderá, também, com o facto de uns serem mais solidários e outros mais contraditórios. O que me causa uma certa perplexidade é quando a conjução é usada, mas o sentido da frase se despista por um atalho qualquer.
O exemplo bem claro do que digo é aquele que transcrevi para o título: o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv. Ora bem, postas numa contenda entre si, por força da artimanha daquele mas, o interlocutor que se debata com semelhante afirmação e que queira percebê-la em toda a sua extensão vê-se um tanto confundido. É que assim enunciada, esta afirmação põe-nos perante um primeiro paradoxo: ou a televisão não é televisão ou então é a Sporttv que não o é, pois a primeira não pode ser o contrário da segunda. Mas mais alcança esta análise fria, à luz de pressupostos gramaticais, tabelas lógicas e outros tantos princípios que se forem inventando para pôr ordem nesta nossa cabecinha. É que poderei eu ou qualquer outra pessoa ser também tentado a pensar que esta frase significa que o jogo dá na televisão, mas que esta por si só, canal generalista, ao vivo e a cores, como alguns se contentavam até há uns tempos, já não basta. Televisão a sério, como dever ser, é a Sporttv.
O que vale é que a comunicação é muito mais que palavras. O timbre, a disposição dos rugas, a própria dilatação das pupilas denuncia logo o que queremos verdadeiramente dizer. A frase em causa, do ponto de vista lógico, não poderia ser menos certeira, mas o que se pretende dizer, isso aí é do domínio comum, universal, mesmo. Quando alguém se põe a dizer que o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv, a entoação tristonha significa que lá se vai encostar a orelha outra vez ao transístor ou então que é preciso rumar ao café e ser bafejado pela sorte de o receptor estar ligado no jogo que se quer ver na Sporttv 1 e não a partida que à mesma hora se joga na Sporttv 2. Tenho a nítida sensação que vou ouvir o mesmo comentário mais vezes. Aliás, estou mesmo certo que o vou repetir com alguma frequência. Ainda bem que, por enquanto, somos uma maioria.
Quando aprendi na escola as conjunções, tive a nítida sensação que a gramática, para mim, era assunto encerrado. Finalmente estava ali um ensinamento absoluto, que condensava todos os anteriores, ao ponto de lhes retirar importância ou novidade. Essa sensação não era inédita. Já tinha passado pelo mesmo quando no segundo ciclo aprendi a fazer as árvores que apartavam o sujeito dos respectivos predicados e complementos, se por acaso este tivesse o mérito de os mostrar. O mesmo sucedeu quando, na matemática, dominei o teorema de pitágoras ou as enaquações. Contas feitas, as da matemática e as da vida, o deslumbramento foi algo intrínseco a tantas descobertas que, sempre que uma se impunha, logo eu pensava que essa era, porventura, aquela suprema, que condensava todos os enigmas da criação do mundo.
No caso particular das conjuções, pareceu-me sobretudo brilhante, e ao mesmo tempo aterrador, que umas pequeninas palavras colocadas entre duas orações pudessem sintetizar com aquele desembaraço tantas emoções e peripécias. Daí a perceber um jogo de fatalidades nos exercícios que a professora de português nos mandava para casa não demorou muito. Com a ligeireza, direi mesmo a displicência de uma escolha fortuita, tratava eu de ir a uma tabela que agrupava as conjunções em copulativas, adversativas, conclusivas, disjuntivas e explicativas e logo me punha a inventar catástrofes ou finais felizes. Creio que essa foi a primeira e única vez que me senti poderoso. Mas convenhamos que era fácil, tratava-se de uma simples luta entre ímpetos adolescentes e um caderno de argolas pautado, ainda em branco.
Ensinou-me essa experiência muita coisa, a começar pelos rigores gramaticais. Felizmente que não se ficou por aí a lição, se bem que a professora, uma mulher denodada, com certeza, como tantos outros professores, não estivesse verdadeiramente empenhada em que retirasse conclusões morais de matéria tão inócua. A verdade é que acabei por fazê-lo, não tanto pelo seu empenho no meu domínio correcto da língua, mas antes porque se multiplicaram os exemplos à minha volta que me ajudaram a elaborar semelhantes raciocínios.
A minha labuta interna no que ao uso de conjuções diz respeito tem sido todo posto na contradição entre as copulativas e as adversativas. Uso as primeiras e vejo os opostos a dar alegramente as mãos, com juras de fidelidade e promessas de ajuda mútua, até ao ponto final. Uso as segundas, e felizmente vejo um desacordo, uma ligeira troca de argumentos, talvez um duelo de cavalheiros, com a respectiva escolha de armas e um ponto de exclamação a condizer. Se vejo as pessoas insistirem nas conjunções copulativas, começo a suspeitar das suas verdadeiras intenções e logo me convenço que há por ali uma ditadura de politicamente correcto. Se, porventura, vejo a repetição mecânica das conjunções adversativas, convenço-me que se acumula, rapidamente, um gosto congénito pela contradição persistente, o que volta a aborrecer-me.
Como algo em excesso não é um problema novo e as suas consequências são muitas e variadas, embora ultimamente só se fale na obesidade, vejo que o meu fascínio pelas conjuções não se prenderá, também, com o facto de uns serem mais solidários e outros mais contraditórios. O que me causa uma certa perplexidade é quando a conjução é usada, mas o sentido da frase se despista por um atalho qualquer.
O exemplo bem claro do que digo é aquele que transcrevi para o título: o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv. Ora bem, postas numa contenda entre si, por força da artimanha daquele mas, o interlocutor que se debata com semelhante afirmação e que queira percebê-la em toda a sua extensão vê-se um tanto confundido. É que assim enunciada, esta afirmação põe-nos perante um primeiro paradoxo: ou a televisão não é televisão ou então é a Sporttv que não o é, pois a primeira não pode ser o contrário da segunda. Mas mais alcança esta análise fria, à luz de pressupostos gramaticais, tabelas lógicas e outros tantos princípios que se forem inventando para pôr ordem nesta nossa cabecinha. É que poderei eu ou qualquer outra pessoa ser também tentado a pensar que esta frase significa que o jogo dá na televisão, mas que esta por si só, canal generalista, ao vivo e a cores, como alguns se contentavam até há uns tempos, já não basta. Televisão a sério, como dever ser, é a Sporttv.
O que vale é que a comunicação é muito mais que palavras. O timbre, a disposição dos rugas, a própria dilatação das pupilas denuncia logo o que queremos verdadeiramente dizer. A frase em causa, do ponto de vista lógico, não poderia ser menos certeira, mas o que se pretende dizer, isso aí é do domínio comum, universal, mesmo. Quando alguém se põe a dizer que o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv, a entoação tristonha significa que lá se vai encostar a orelha outra vez ao transístor ou então que é preciso rumar ao café e ser bafejado pela sorte de o receptor estar ligado no jogo que se quer ver na Sporttv 1 e não a partida que à mesma hora se joga na Sporttv 2. Tenho a nítida sensação que vou ouvir o mesmo comentário mais vezes. Aliás, estou mesmo certo que o vou repetir com alguma frequência. Ainda bem que, por enquanto, somos uma maioria.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
receita da semana - frango assado no forno com molho de mostarda
Esta é talvez uma das receitas que mais despertou em mim a veia culinária. Claro que por aqui há dedo da mãezinha, que soube muito bem "desviar-me" para os lados da cozinha. O seu segredo: cozinhava (e cozinha) bem e convidava-me para aqueles lados da casa com os aromas que as suas mãos sabem inventar.
Esta receita é daquelas que exige paciência, não por ser difícil, mas porque o segredo está numa cozedura lenta, paciente e bem assistida, como se verá.
Começa-se por esfregar os frangos inteiros com sal grosso. Depois de estarem bem massajados, coloca-se um caldo de galinha e meio limão na cavidade de cada frango, de onde se retiram os miúdos (que depois podem ficar para a canja).
Em seguida, os frangos são regados com o molho de mostarda. Para cada dois frangos, o molho consiste em meia barra de mateiga, pelo menos uma cabeça de alho, uma folha de louro, massa malagueta a gosto e, claro, mostarda (um a dois frascos). Estes ingredientes devem, previamente, ir ao lume, até a manteiga ligar com a mostarda.
O molho não deve ser colocado todo de uma vez. Ao longo da cozedura, é preciso ir regando os frangos à medida que estes vão sendo virados, para assarem bem de um lado e de outro.
Ao fim de, pelo menos, duas horas (talvez mais um pouco), os frangos estão prontos a servir.
Nota 1: Será importante não deixar o frango num tabuleiro do forno que esteja muito próximo do lume, pois o molho tem tendência a secar muito rapidamente, acabando mesmo por queimar.
Nota 2: Para acompanhar vale tudo. Sugiro o arroz branco (escolha óbvia) mas um puré de batata, com queijo parmesão, não fica nada mal na fotografia.
Esta receita é daquelas que exige paciência, não por ser difícil, mas porque o segredo está numa cozedura lenta, paciente e bem assistida, como se verá.
Começa-se por esfregar os frangos inteiros com sal grosso. Depois de estarem bem massajados, coloca-se um caldo de galinha e meio limão na cavidade de cada frango, de onde se retiram os miúdos (que depois podem ficar para a canja).
Em seguida, os frangos são regados com o molho de mostarda. Para cada dois frangos, o molho consiste em meia barra de mateiga, pelo menos uma cabeça de alho, uma folha de louro, massa malagueta a gosto e, claro, mostarda (um a dois frascos). Estes ingredientes devem, previamente, ir ao lume, até a manteiga ligar com a mostarda.
O molho não deve ser colocado todo de uma vez. Ao longo da cozedura, é preciso ir regando os frangos à medida que estes vão sendo virados, para assarem bem de um lado e de outro.
Ao fim de, pelo menos, duas horas (talvez mais um pouco), os frangos estão prontos a servir.
Nota 1: Será importante não deixar o frango num tabuleiro do forno que esteja muito próximo do lume, pois o molho tem tendência a secar muito rapidamente, acabando mesmo por queimar.
Nota 2: Para acompanhar vale tudo. Sugiro o arroz branco (escolha óbvia) mas um puré de batata, com queijo parmesão, não fica nada mal na fotografia.
Intimidades
De como o conhecimento mútuo não pode ser mensurado apenas pelo tempo. Os reducionistas dirão que é apenas uma questão de tomates. E vai daí, talvez seja.
Uma das tarefas que mais pôs em causa a minha permanência na escola foi o picotado. Nunca me dei com a exigência de reduzir as margens de brinquedos, bonecos sorridentes e frutas gordas e sumarentas a uma profusão de pontos precisos, furadinhos uns atrás dos outros. Picotar as extremidades do desenho ou da figura ainda era o menos, pois na primeira parte dessa tarefa um tanto meticulosa para o atabalhoamento dos meus seis anos, até nem em saía mal. O desenho ficava bem recortadinho, pronto a ser arrancado ao resto do papel que no fim daquela árdua façanha restaria no canto da carteira como se fosse a pele enjeitada de um animal.
O pior era quando a minha destreza canhota, tanto a manual como a dos instintos, se punha a desfazer o picotado propriamente dito. O descalabro que logo se reunia valia-me as mais veementes reprimendas por parte das minhas professoras, indignadas com a minha falta de jeito para as artes manuais. O pior nem era ouvir aqueles raspanetes, pois eram perfeitamente justificados. Bem vistas as coisas, talvez ainda fossem demasiado brandos, embora não creia que juntar-lhes virulência pudesse ter despertado em mim qualquer ímpeto artístico. O pior era mesmo o sentimento de culpa por todos os dias cometer uma qualquer atrocidade. Se não era um peixe que ficava de guelra palpitante e olho lancinado de dor, porque lhe arrancara uma barbatana, era uma menina que levava as mãos à cara para esconder a vergonha de quem tinha acabado de ficar sem uma trança. O meu colega do lado, já não lembro bem quem, ficava a rir-se de mim e da menina.
Eu e esse meu colega do lado crescemos, mas não acredito que ele se tenha tornado mais sensível. Passado tanto tempo, vivo mais descansado por saber que um dia, quando tiver um filho, ele não vai ter de picotar figuras e desenhos na escola. Algures, o esclarecimento dos pedagogos percebeu que os picotados eram uma das mais inúteis tarefas escolares. Felizmente que há maneiras e maneiras de picotar e que umas são bem mais curiosas, ainda que sejam, também, mais difíceis de dominar.
Todos sabemos de uns quantos felizardos que sabem muito bem definir as margens dos nossos interesses e manias, que logo nos topam os defeitos ou as virtudes, como se vissem em nós aquelas instruções dos pacotes ou das margens dos antigos cupões dos concursos, com um tracejado à frente dos dois bicos de uma tesoura, a assinalar por onde se deve recortar. Alguns são mesmos mestres em vencer as nossas defesas ou uma certa dose de timidez, para logo nos encontrar a abertura fácil da alma.
Tenho conhecido algumas dessas pessoas que o venerando senso-comum insiste em reconhecer como aqueles seres capazes de, em menos de nada, nos fazer um raio-x. Ora, perante esta definição simples da inteligência emocional costumo levantar algumas objecções, primeiro porque rejeito tudo quanto faça lembrar o cheiro a éter, mesmo que vagamente, depois porque aquela sensação de estar tão despido que até me vêem os ossos também não me agrada particularmente. Além disso, é como se a responsabilidade dos encontros fortuitos fosse apenas minha, quando afinal, nem que seja por uma conjugação de acasos, a outra pessoa também lá esteve e se predispôs a analisar-me.
O sucesso causado por uma primeira impressão é proporcional à sensação de, por alguma razão, logo ali, olhos nos olhos, sentirmos que se criou uma intimidade repentina, mas com fundamento. É nessas alturas que alguém decide seguir o nosso picotado e nos descobre a tal abertura fácil. Daí em diante, é de esperar que façam gato-sapato de nós.
Há uma senhora vendedora no mercado que soube encontrar esse meu sistema de abertura fácil. Daí a fidelizar-me como cliente da sua banca foi o tempo do pagamento, do respectivo troco e das promessas de regresso no fim-de-semana seguinte. Tudo sucedeu num Sábado de manhã em que andava a rondar a banca da vendedora. Sei que tinha uma listinha amarrotada no bolso ou nas traseiras da minha memória, mas o meu intuito verdadeiro e mais elaborado era o de comprar tomate. A fruta poderia ter a calibragem mais variada, os legumes podiam ser mais ou menos frescos, mas já o tomate, bom, esse tinha de corresponder a requisitos bem precisos. Como o queria assar no forno, sabia que tinha de estar bem maduro e que tinha de ser bem redondo para ficar bonito na travessa. Andava eu por ali a cirandar havia já um bom bocado e a senhora olhava-me atentamente, na azáfama do atendimento aos sucessivos fregueses. Percebi que ela estava à espera de encontrar uma nesga de tempo para me dizer algo, pelo que me demorei mais um bocado, entre a análise clínica a um raminho de salsa e a verificação à consistência de um par de pêssegos. Assim que pôde, o indicador da senhora chamou-me com um ar descarado de conluio. Eu hesitei, mas depois de farolar em redor para ver se ninguém nos topava, tornou ela a chamar-me. Como não via perigo, mas também não reconhecia necessidade de tanto segredo, continuei um bocado indeciso. Por fim, lá avancei e assim que cheguei ao outro lado da bancada, logo a vendedora me perguntou retoricamente, ao puxar de um cesto escondido sob a bancada:
- É isto que procura, não é verdade?
Sei que textualmente, a pergunta não foi esta, mas isso pouco interessava. O que realmente interessava é que lá estava ele, redondinho, bem vermelho, pronto a ir ao forno, o tomate por que eu ansiava. A senhora sorriu triunfante, certa que o seu gesto fora preciso. Eu, por mim, acenei com a cabeça, já depois de ter posto um olho nas redondezas, para me certificar, também, que ninguém nos vigiava. No fim, agradeci, mas contas feitas, senti que continuava em dívida com a senhora. Essa tinha sido, afinal, a sua maior conquista. Daí em diante, tornei-me cliente assíduo daquela banca de mercado, para saldar esse e outros favores de uma intimidade simples, mas eficaz, recortada com precisão no picotado dos meus insondáveis desejos. Ultimamente, a conta por pagar acumulou juros. Não tenho lá ido, como era hábito ao Sábado de manhã. Vou arranjando desculpas, umas mais plausíveis, outras sem sentido. No Inverno vou voltar a querer tomate do bom. Nessa altura, tenho a certeza que vou voltar.
Uma das tarefas que mais pôs em causa a minha permanência na escola foi o picotado. Nunca me dei com a exigência de reduzir as margens de brinquedos, bonecos sorridentes e frutas gordas e sumarentas a uma profusão de pontos precisos, furadinhos uns atrás dos outros. Picotar as extremidades do desenho ou da figura ainda era o menos, pois na primeira parte dessa tarefa um tanto meticulosa para o atabalhoamento dos meus seis anos, até nem em saía mal. O desenho ficava bem recortadinho, pronto a ser arrancado ao resto do papel que no fim daquela árdua façanha restaria no canto da carteira como se fosse a pele enjeitada de um animal.
O pior era quando a minha destreza canhota, tanto a manual como a dos instintos, se punha a desfazer o picotado propriamente dito. O descalabro que logo se reunia valia-me as mais veementes reprimendas por parte das minhas professoras, indignadas com a minha falta de jeito para as artes manuais. O pior nem era ouvir aqueles raspanetes, pois eram perfeitamente justificados. Bem vistas as coisas, talvez ainda fossem demasiado brandos, embora não creia que juntar-lhes virulência pudesse ter despertado em mim qualquer ímpeto artístico. O pior era mesmo o sentimento de culpa por todos os dias cometer uma qualquer atrocidade. Se não era um peixe que ficava de guelra palpitante e olho lancinado de dor, porque lhe arrancara uma barbatana, era uma menina que levava as mãos à cara para esconder a vergonha de quem tinha acabado de ficar sem uma trança. O meu colega do lado, já não lembro bem quem, ficava a rir-se de mim e da menina.
Eu e esse meu colega do lado crescemos, mas não acredito que ele se tenha tornado mais sensível. Passado tanto tempo, vivo mais descansado por saber que um dia, quando tiver um filho, ele não vai ter de picotar figuras e desenhos na escola. Algures, o esclarecimento dos pedagogos percebeu que os picotados eram uma das mais inúteis tarefas escolares. Felizmente que há maneiras e maneiras de picotar e que umas são bem mais curiosas, ainda que sejam, também, mais difíceis de dominar.
Todos sabemos de uns quantos felizardos que sabem muito bem definir as margens dos nossos interesses e manias, que logo nos topam os defeitos ou as virtudes, como se vissem em nós aquelas instruções dos pacotes ou das margens dos antigos cupões dos concursos, com um tracejado à frente dos dois bicos de uma tesoura, a assinalar por onde se deve recortar. Alguns são mesmos mestres em vencer as nossas defesas ou uma certa dose de timidez, para logo nos encontrar a abertura fácil da alma.
Tenho conhecido algumas dessas pessoas que o venerando senso-comum insiste em reconhecer como aqueles seres capazes de, em menos de nada, nos fazer um raio-x. Ora, perante esta definição simples da inteligência emocional costumo levantar algumas objecções, primeiro porque rejeito tudo quanto faça lembrar o cheiro a éter, mesmo que vagamente, depois porque aquela sensação de estar tão despido que até me vêem os ossos também não me agrada particularmente. Além disso, é como se a responsabilidade dos encontros fortuitos fosse apenas minha, quando afinal, nem que seja por uma conjugação de acasos, a outra pessoa também lá esteve e se predispôs a analisar-me.
O sucesso causado por uma primeira impressão é proporcional à sensação de, por alguma razão, logo ali, olhos nos olhos, sentirmos que se criou uma intimidade repentina, mas com fundamento. É nessas alturas que alguém decide seguir o nosso picotado e nos descobre a tal abertura fácil. Daí em diante, é de esperar que façam gato-sapato de nós.
Há uma senhora vendedora no mercado que soube encontrar esse meu sistema de abertura fácil. Daí a fidelizar-me como cliente da sua banca foi o tempo do pagamento, do respectivo troco e das promessas de regresso no fim-de-semana seguinte. Tudo sucedeu num Sábado de manhã em que andava a rondar a banca da vendedora. Sei que tinha uma listinha amarrotada no bolso ou nas traseiras da minha memória, mas o meu intuito verdadeiro e mais elaborado era o de comprar tomate. A fruta poderia ter a calibragem mais variada, os legumes podiam ser mais ou menos frescos, mas já o tomate, bom, esse tinha de corresponder a requisitos bem precisos. Como o queria assar no forno, sabia que tinha de estar bem maduro e que tinha de ser bem redondo para ficar bonito na travessa. Andava eu por ali a cirandar havia já um bom bocado e a senhora olhava-me atentamente, na azáfama do atendimento aos sucessivos fregueses. Percebi que ela estava à espera de encontrar uma nesga de tempo para me dizer algo, pelo que me demorei mais um bocado, entre a análise clínica a um raminho de salsa e a verificação à consistência de um par de pêssegos. Assim que pôde, o indicador da senhora chamou-me com um ar descarado de conluio. Eu hesitei, mas depois de farolar em redor para ver se ninguém nos topava, tornou ela a chamar-me. Como não via perigo, mas também não reconhecia necessidade de tanto segredo, continuei um bocado indeciso. Por fim, lá avancei e assim que cheguei ao outro lado da bancada, logo a vendedora me perguntou retoricamente, ao puxar de um cesto escondido sob a bancada:
- É isto que procura, não é verdade?
Sei que textualmente, a pergunta não foi esta, mas isso pouco interessava. O que realmente interessava é que lá estava ele, redondinho, bem vermelho, pronto a ir ao forno, o tomate por que eu ansiava. A senhora sorriu triunfante, certa que o seu gesto fora preciso. Eu, por mim, acenei com a cabeça, já depois de ter posto um olho nas redondezas, para me certificar, também, que ninguém nos vigiava. No fim, agradeci, mas contas feitas, senti que continuava em dívida com a senhora. Essa tinha sido, afinal, a sua maior conquista. Daí em diante, tornei-me cliente assíduo daquela banca de mercado, para saldar esse e outros favores de uma intimidade simples, mas eficaz, recortada com precisão no picotado dos meus insondáveis desejos. Ultimamente, a conta por pagar acumulou juros. Não tenho lá ido, como era hábito ao Sábado de manhã. Vou arranjando desculpas, umas mais plausíveis, outras sem sentido. No Inverno vou voltar a querer tomate do bom. Nessa altura, tenho a certeza que vou voltar.
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Travessa de tomate assado
É uma invenção recente, simples, sem espinhas e bastante agradável para acompanhar um assado qualquer, carne ou peixe:
Numa travessa ponha tomate bem maduro, cortado em quartos. Misture pão cortado aos cubos. Regue com azeite q.b. e polvilhe tudo com sal, alho em pó e umas folhas de manjerona. Depois é só ir ao forno e deixar assar. Não pus queijo, mas suspeito que ficaria óptimo com esse "acrescento". Daí a meia-hora, estava pronto a servir. Dessa vez, acompanhou um bacalhau assado...
Nota: a receita ficou muito mais saborosa porque o tomate era biológico, do quintal do meu pai. Em suma, não tinha a calibragem adequada para ser vendido no mercado, tinha um formato um tanto ou quanto risível para os preceitos da UE, mas o sabor, bom, esse era incomparável. Talvez soubesse um pouco a fruto proibido.
Numa travessa ponha tomate bem maduro, cortado em quartos. Misture pão cortado aos cubos. Regue com azeite q.b. e polvilhe tudo com sal, alho em pó e umas folhas de manjerona. Depois é só ir ao forno e deixar assar. Não pus queijo, mas suspeito que ficaria óptimo com esse "acrescento". Daí a meia-hora, estava pronto a servir. Dessa vez, acompanhou um bacalhau assado...
Nota: a receita ficou muito mais saborosa porque o tomate era biológico, do quintal do meu pai. Em suma, não tinha a calibragem adequada para ser vendido no mercado, tinha um formato um tanto ou quanto risível para os preceitos da UE, mas o sabor, bom, esse era incomparável. Talvez soubesse um pouco a fruto proibido.
Notas sobre um joelho bem esfolado
Muitos académicos empenhados em reescrever as suas angústias primitivas dedilharam tomos e mais tomos de psicologia infantil e juvenil até tornarem em verdade inquestionável que o ditame de todas as infelicidades se reduz aos anos iniciais da nossa vida. Avança a ciência psicológica e em sentido inverso recua a barreira temporal em que se forma o trauma. Significa isto que de acordo com os doutos especialistas da psicologia, está a vida determinada a partir dos primeiros meses de vida.
No meu tempo (cá está um acesso reumatóide que começa a fazer-se demasiado recorrente), os únicos traumas eram inscritos na memória pessoal quando dela podíamos fazer uso em toda a sua plenitude. Enfim, era pelo menos um direito que nos assistia. Não consigo enumerar todos aqueles de que me lembro, o que poderá ser bom sinal. Os clínicos menos conformados não deixarão, ainda assim, de rebater esta minha observação, dizendo que há qualquer sofrimento intolerável que terei reprimido e que, com certeza, explicará as minhas faltas naquelas quatro vertentes que o acto de contrição (lá está a culpa) ajudou a sintetizar, a saber, pensamentos, palavras, actos e omissões. Dito isto, apetece acrescentar que contra estas leituras psicológicas nada poderei fazer a não ser invocar o resignado, e muito conhecido, preso por ter cão e preso por não ter, pois se sofro é porque sofro, se não sofro é porque evito sofrer. Adiante.
Dizia eu antes destes redondéis que não conseguirei enumerar todos os meus traumas infantis, mas alguns subsistem bem vívidos em recordações ou até em cicatrizes e padecimentos. O primeiro que me vem à cabeça foi, literalmente, aquele que a abriu a meio. Estava eu pendurado num portão de ferro a olhar para o galinheiro que os meus pais conservavam, no quintal mais por devoção a um passado algures rural do que pelos proventos em ovos e respectivas omeletes, quando o dito cujo ganhou vida própria e decidiu desprender-se da parede. A queda teve todos os méritos de gravidade, a clínica e a da física que faz tender tudo para o centro da terra, embora a primeira, convenhamos, fosse mais ampliada pelo susto do que justificada por sequelas irreversíveis. Por estranho que possa parecer, tenho um certo orgulho no corte que se me abriu no cocuruto. Dessa maneira selei um dos meus primeiros actos de afirmação pessoal, pois a queda contrariou a voz da minha mãe, que andava por perto, e que por várias vezes me ordenou que parasse de balançar no raio do portão. Como nessa altura, continua ela a ter razão em muita coisa e por isso mesmo, dediquei-me a fazer balançar outros portões. Um dia hei-de voltar a cair e ela há-de voltar a ter razão.
Outro trauma da minha infância foi o da exposição continuada, quatro anos lectivos no total, às carteiras da Escola Primária Brianda Pereira, no Porto Judeu de Cima. Essa espécie de tortura refinada, porque prolongada no tempo e destinada a produzir os seus efeitos perniciosos apenas no longo prazo, prendia-se com o desenho do raio do móvel. Era ele maciço, com dois lugares abertos para um plano inclinado onde se punham os livros. No topo, escavada na madeira, havia uma cova para os lápis e para as canetas, embora a vermelha só pudesse ser usada a partir da terceira classe. Entre o meu espaço e o do meu colega havia um buraco. Diziam que era para a afiadeira que, à altura, dava pelo cognome de apara-lápis. No meu caso percebo porquê: raramente os meus lápis ficavam bem afiados, apesar das aparas serem mais que muitas. Bom, era a tal carteira tortuosa porque nunca ela se ajustou, em dimensão e proporção, às minhas pernas em contínuo crescimento. Creio até que o contrariou. Será por isso que hoje não tenho dois metros e dez e uma carreira plena de títulos no basquetebol ou no voleibol e que, de quando em vez, sinto uma dorzita na coluna, apesar de alguns entendidos em ergonomia reclamarem pelo regresso daqueles mastodontes às escolas.
Vem a recuperação dos meus traumas, pelo menos daqueles a que o meu inconsciente permite aceder, a respeito de há dias, enquanto andava de bicicleta, no auge do meu desequilíbrio, ter ido contra um passeio. Não houve queda aparatosa, seguida de fractura exposta, mas antes um joelho que saiu artisticamente esfolado de toda aquela falta de jeito. De início, lá se pôs o meu ego a labutar, cabeça para um lado e para o outro como as torres de controlo de um aeroporto, não tivesse um vizinho assistido de balcão a todo aquele número de circo. Pouco importava que o joelho debitasse sangue em bica, agora sentir-me enxovalhado pelas gentes das redondezas, isso é que nem pensar. Lá pedalei rua abaixo até a casa e enquanto a brisa fazia ferver o meu joelho dei todas as quedas que já tinha dado até àquele dia, sobretudo as mais desajeitadas, nos interstícios das peladinhas com os meus primos ou da apanhada no recreio, que dantes se chamava rolha ou pica. Nunca uma dor me fez sorrir tanto. Estive mesmo para protelar a água oxigenada, como se um compasso de espera pudesse contrariar a degenerescência biológica. Quando o ardor do desinfectante borbulhou minimamente sobre a ferida reconheci que o maior trauma humano se resume a entrar na idade adulta. Desse dia em diante, passei a preferir a carne viva a qualquer crosta quezilenta.
No meu tempo (cá está um acesso reumatóide que começa a fazer-se demasiado recorrente), os únicos traumas eram inscritos na memória pessoal quando dela podíamos fazer uso em toda a sua plenitude. Enfim, era pelo menos um direito que nos assistia. Não consigo enumerar todos aqueles de que me lembro, o que poderá ser bom sinal. Os clínicos menos conformados não deixarão, ainda assim, de rebater esta minha observação, dizendo que há qualquer sofrimento intolerável que terei reprimido e que, com certeza, explicará as minhas faltas naquelas quatro vertentes que o acto de contrição (lá está a culpa) ajudou a sintetizar, a saber, pensamentos, palavras, actos e omissões. Dito isto, apetece acrescentar que contra estas leituras psicológicas nada poderei fazer a não ser invocar o resignado, e muito conhecido, preso por ter cão e preso por não ter, pois se sofro é porque sofro, se não sofro é porque evito sofrer. Adiante.
Dizia eu antes destes redondéis que não conseguirei enumerar todos os meus traumas infantis, mas alguns subsistem bem vívidos em recordações ou até em cicatrizes e padecimentos. O primeiro que me vem à cabeça foi, literalmente, aquele que a abriu a meio. Estava eu pendurado num portão de ferro a olhar para o galinheiro que os meus pais conservavam, no quintal mais por devoção a um passado algures rural do que pelos proventos em ovos e respectivas omeletes, quando o dito cujo ganhou vida própria e decidiu desprender-se da parede. A queda teve todos os méritos de gravidade, a clínica e a da física que faz tender tudo para o centro da terra, embora a primeira, convenhamos, fosse mais ampliada pelo susto do que justificada por sequelas irreversíveis. Por estranho que possa parecer, tenho um certo orgulho no corte que se me abriu no cocuruto. Dessa maneira selei um dos meus primeiros actos de afirmação pessoal, pois a queda contrariou a voz da minha mãe, que andava por perto, e que por várias vezes me ordenou que parasse de balançar no raio do portão. Como nessa altura, continua ela a ter razão em muita coisa e por isso mesmo, dediquei-me a fazer balançar outros portões. Um dia hei-de voltar a cair e ela há-de voltar a ter razão.
Outro trauma da minha infância foi o da exposição continuada, quatro anos lectivos no total, às carteiras da Escola Primária Brianda Pereira, no Porto Judeu de Cima. Essa espécie de tortura refinada, porque prolongada no tempo e destinada a produzir os seus efeitos perniciosos apenas no longo prazo, prendia-se com o desenho do raio do móvel. Era ele maciço, com dois lugares abertos para um plano inclinado onde se punham os livros. No topo, escavada na madeira, havia uma cova para os lápis e para as canetas, embora a vermelha só pudesse ser usada a partir da terceira classe. Entre o meu espaço e o do meu colega havia um buraco. Diziam que era para a afiadeira que, à altura, dava pelo cognome de apara-lápis. No meu caso percebo porquê: raramente os meus lápis ficavam bem afiados, apesar das aparas serem mais que muitas. Bom, era a tal carteira tortuosa porque nunca ela se ajustou, em dimensão e proporção, às minhas pernas em contínuo crescimento. Creio até que o contrariou. Será por isso que hoje não tenho dois metros e dez e uma carreira plena de títulos no basquetebol ou no voleibol e que, de quando em vez, sinto uma dorzita na coluna, apesar de alguns entendidos em ergonomia reclamarem pelo regresso daqueles mastodontes às escolas.
Vem a recuperação dos meus traumas, pelo menos daqueles a que o meu inconsciente permite aceder, a respeito de há dias, enquanto andava de bicicleta, no auge do meu desequilíbrio, ter ido contra um passeio. Não houve queda aparatosa, seguida de fractura exposta, mas antes um joelho que saiu artisticamente esfolado de toda aquela falta de jeito. De início, lá se pôs o meu ego a labutar, cabeça para um lado e para o outro como as torres de controlo de um aeroporto, não tivesse um vizinho assistido de balcão a todo aquele número de circo. Pouco importava que o joelho debitasse sangue em bica, agora sentir-me enxovalhado pelas gentes das redondezas, isso é que nem pensar. Lá pedalei rua abaixo até a casa e enquanto a brisa fazia ferver o meu joelho dei todas as quedas que já tinha dado até àquele dia, sobretudo as mais desajeitadas, nos interstícios das peladinhas com os meus primos ou da apanhada no recreio, que dantes se chamava rolha ou pica. Nunca uma dor me fez sorrir tanto. Estive mesmo para protelar a água oxigenada, como se um compasso de espera pudesse contrariar a degenerescência biológica. Quando o ardor do desinfectante borbulhou minimamente sobre a ferida reconheci que o maior trauma humano se resume a entrar na idade adulta. Desse dia em diante, passei a preferir a carne viva a qualquer crosta quezilenta.
sábado, 1 de setembro de 2007
Receita da semana - feijoada instantânea
Vão ver que não é receita própria de grandes refinamentos, mas o resultado final tem os seus atributos! Fi-la hoje ao almoço e soube-me bem. Contra essa qualidade, pouco haverá a contestar.
Devo-a ao amigo que não sendo de sempre, é como se o fosse. Obrigadinho Ricardo.
A coisa não tem nada que saber. Tudo começa com um bom refogado com uma cebola média e bacon cortado aos cubos (pode-se juntar, também, carne picada, se se quiser que o prato tenha um pouco mais de substância, embora, por norma, não o faça).
Deixa-se a cebola alourar e a bacon fritar um pouco, durante cerca de 5 minutos, em lume médio, mexendo sempre.
Em seguida, junta-se uma lata de baked beans e molho de tomate q.b.. Tempera-se, de seguida, com um pouco de sal e alho em pó. Deixa-se cozinhar entre 10 a 15 minutos, para que o refogado e o molho de tomate liguem, mexendo sempre e retificando o tempero, sempre que necessário.
À parte, coze-se um pouco de arroz branco para servir com o feijão.
Não é de pacote, mas é quase, e mesmo não o sendo (totalmente), não deixa de ser rápido...
Bom apetite!
Devo-a ao amigo que não sendo de sempre, é como se o fosse. Obrigadinho Ricardo.
A coisa não tem nada que saber. Tudo começa com um bom refogado com uma cebola média e bacon cortado aos cubos (pode-se juntar, também, carne picada, se se quiser que o prato tenha um pouco mais de substância, embora, por norma, não o faça).
Deixa-se a cebola alourar e a bacon fritar um pouco, durante cerca de 5 minutos, em lume médio, mexendo sempre.
Em seguida, junta-se uma lata de baked beans e molho de tomate q.b.. Tempera-se, de seguida, com um pouco de sal e alho em pó. Deixa-se cozinhar entre 10 a 15 minutos, para que o refogado e o molho de tomate liguem, mexendo sempre e retificando o tempero, sempre que necessário.
À parte, coze-se um pouco de arroz branco para servir com o feijão.
Não é de pacote, mas é quase, e mesmo não o sendo (totalmente), não deixa de ser rápido...
Bom apetite!
Digressões em torno dos objectos - os meus óculos escuros
Considerações acerca de uns certos óculos escuros que muito têm contribuído para reflectir de forma avulsa acerca do estauto social e das razões menos legítimas como o legitimam. Lamento paralelo sobre a minha distracção congénita que não dá sinais de poder ser erradicada.
Há coisas que são marcantes na vida de uma pessoa. Umas são decretos da biologia, umas quantas têm o cunho do azar, uma boa parcela são produto da estupidez. Algumas serão da nossa lavra, mas outras não encontram a mais vaga reminiscência no brio pessoal, pois costuma ser atribuída ao acaso. Gostaria de pensar que aquilo que recentemente me aconteceu se deve mais ao destino do que a uma decisão pessoal.
Há uns tempos comprei uns óculos escuros. Fi-lo com a mesma reflexão que um ponta-de-lança revela à beira da linha de golo, ou seja, nenhuma. É verdade que ainda fiz duas investidas às lojas da especialidade, que experimentei um ou outro modelo e que franzi o nariz e a testa como os miúdos pouco convencidos na idade dos porquês. No fim, fui-me embora, certo que lá não voltaria.
O problema que se me punha não ficou, porém, resolvido. Na verdade, até precisava do raio dos óculos, por causa destes olhos sensíveis à radiação que tenho. Movido pelo ímpeto tax-free, lá fui eu a uma loja de aeroporto, num dos meus regressos à Terceira. Reparei em uma ou duas hipóteses aceitáveis em termos de preço e design, voltei a simular caretas infantis e, meio por acaso, entre a parafernália de aros de todas cores, materiais e feitios imagináveis, lá estava o modelo por que tanto ansiava. Não foi um amor à primeira vista, bem pelo contrário. Estes óculos eram bem diferentes dos que habitualmente usava e assentados no nariz produziam em mim uma dissonância qualquer, uma estranheza difícil de domar. Movido por essa sensação de acto fora de controlo e pleno de consequências acabei por trazê-los, prometendo a mim mesmo que me habituaria à ideia ou que odiaria aqueles óculos eternamente, que não há nada como um bom desafio ou que, se calhar, tantos rodriguinhos eram ridículos quando não fizera mais do que uma banal compra, utilitária sobretudo, tendo em conta os excessos do solstício de Verão.
Mal sabia eu que com a minha singela compra acabara de subir uns tantos degraus da pirâmide social. Não se deveu tal promoção ao critério mais óbvio que seria o preço real ou, pelo menos, imaginado do produto, mas antes à boa-vontade alheia. Nos dias seguintes multiplicaram-se os comentários ao meu novo acessório. Algumas pessoas descobriram-me laivos de inspector policial que eu desconhecia por completo ter, pois nunca pensei reunir os atributos necessários, a saber, desconfiança permanente, fascínio pela sombra ou gosto pelos rendilhados próprios das conspirações. Outras, ainda que claramente desconcertadas com a minha escolha, ao ponto de não me reconhecerem na rua, rapidamente renderam-se às evidências, enaltecendo o estilo e o bom-gosto revelados na minha escolha. Certos olhares mais penetrantes creio que cobiçaram o raio dos óculos.
Independentemente da razão invocada, os meus óculos não passaram despercebidos. Senti um inchaço narcísico tal que agora, admito, já não vivo sem os meus Ray-Ban. Tenho provas contundentes do que digo. No outro dia, reparei que não sabia deles. Daí a um drama em vários actos, com direito a cenografia grandiosa, ponto impecável e representação soberba, foi um instantinho. Uma, duas, três verificações a cada gaveta e pasta lá em casa, o obsessivo que há dentro de mim a crescer a cada minuto que passava nas suas múltiplas recriminações, depressa transformadas em insulto e canelada no ego, e o estatuto social tão abruptamente perdido tal como acabara de ser conquistado. Os óculos escuros lá apareceram, já não sei muito aonde, para ser fiel aos factos e à minha distracção congénita. Por ser assim tão distraído, não tive outro remédio que não fosse estabelecer um plano de acção, para saber sempre onde estão os meus óculos escuros. Têm os ditos cujos de ser arrumados dentro do estojo sempre que são usados. Por sua vez, o estojo tem lugar certo numa das bolsas interiores da minha pasta. Já a pasta tem de ficar esquecida, aliás, arrumada na sala, ao lado do aparador, mesmo no enfiamento da porta da rua. Desconfio que toda esta minha planificação não vá servir de muito. Já fiz o mesmo com chaves, carteiras e cartões, os de crédito e os de débito, incluindo o Bilhete de Identidade, também ele tributário de créditos e de débitos, se bem que de outra natureza. Há uns quantos que ainda não reavi. Felizmente, o Estado que tanto zela por mim lá me deu outra oportunidade incomparável de existir neste país, emitindo várias vezes o meu Bilhete de Identidade. Todavia, agora que subi de posto na hierarquia social, quero continuar a existir dessa maneira, mesmo que não possa reclamar méritos assinaláveis para tal e que seja refém, doravante, dos meus óculos. Acho que não tarda muito e começarei a pô-los na mesa-de-cabeceira para dormir mais descansado. Daqui a uns anos, ponho a dentadura dentro de um copo com água a fazer-lhes companhia. Por essa altura, espero ser menos os objectos que uso.
Há coisas que são marcantes na vida de uma pessoa. Umas são decretos da biologia, umas quantas têm o cunho do azar, uma boa parcela são produto da estupidez. Algumas serão da nossa lavra, mas outras não encontram a mais vaga reminiscência no brio pessoal, pois costuma ser atribuída ao acaso. Gostaria de pensar que aquilo que recentemente me aconteceu se deve mais ao destino do que a uma decisão pessoal.
Há uns tempos comprei uns óculos escuros. Fi-lo com a mesma reflexão que um ponta-de-lança revela à beira da linha de golo, ou seja, nenhuma. É verdade que ainda fiz duas investidas às lojas da especialidade, que experimentei um ou outro modelo e que franzi o nariz e a testa como os miúdos pouco convencidos na idade dos porquês. No fim, fui-me embora, certo que lá não voltaria.
O problema que se me punha não ficou, porém, resolvido. Na verdade, até precisava do raio dos óculos, por causa destes olhos sensíveis à radiação que tenho. Movido pelo ímpeto tax-free, lá fui eu a uma loja de aeroporto, num dos meus regressos à Terceira. Reparei em uma ou duas hipóteses aceitáveis em termos de preço e design, voltei a simular caretas infantis e, meio por acaso, entre a parafernália de aros de todas cores, materiais e feitios imagináveis, lá estava o modelo por que tanto ansiava. Não foi um amor à primeira vista, bem pelo contrário. Estes óculos eram bem diferentes dos que habitualmente usava e assentados no nariz produziam em mim uma dissonância qualquer, uma estranheza difícil de domar. Movido por essa sensação de acto fora de controlo e pleno de consequências acabei por trazê-los, prometendo a mim mesmo que me habituaria à ideia ou que odiaria aqueles óculos eternamente, que não há nada como um bom desafio ou que, se calhar, tantos rodriguinhos eram ridículos quando não fizera mais do que uma banal compra, utilitária sobretudo, tendo em conta os excessos do solstício de Verão.
Mal sabia eu que com a minha singela compra acabara de subir uns tantos degraus da pirâmide social. Não se deveu tal promoção ao critério mais óbvio que seria o preço real ou, pelo menos, imaginado do produto, mas antes à boa-vontade alheia. Nos dias seguintes multiplicaram-se os comentários ao meu novo acessório. Algumas pessoas descobriram-me laivos de inspector policial que eu desconhecia por completo ter, pois nunca pensei reunir os atributos necessários, a saber, desconfiança permanente, fascínio pela sombra ou gosto pelos rendilhados próprios das conspirações. Outras, ainda que claramente desconcertadas com a minha escolha, ao ponto de não me reconhecerem na rua, rapidamente renderam-se às evidências, enaltecendo o estilo e o bom-gosto revelados na minha escolha. Certos olhares mais penetrantes creio que cobiçaram o raio dos óculos.
Independentemente da razão invocada, os meus óculos não passaram despercebidos. Senti um inchaço narcísico tal que agora, admito, já não vivo sem os meus Ray-Ban. Tenho provas contundentes do que digo. No outro dia, reparei que não sabia deles. Daí a um drama em vários actos, com direito a cenografia grandiosa, ponto impecável e representação soberba, foi um instantinho. Uma, duas, três verificações a cada gaveta e pasta lá em casa, o obsessivo que há dentro de mim a crescer a cada minuto que passava nas suas múltiplas recriminações, depressa transformadas em insulto e canelada no ego, e o estatuto social tão abruptamente perdido tal como acabara de ser conquistado. Os óculos escuros lá apareceram, já não sei muito aonde, para ser fiel aos factos e à minha distracção congénita. Por ser assim tão distraído, não tive outro remédio que não fosse estabelecer um plano de acção, para saber sempre onde estão os meus óculos escuros. Têm os ditos cujos de ser arrumados dentro do estojo sempre que são usados. Por sua vez, o estojo tem lugar certo numa das bolsas interiores da minha pasta. Já a pasta tem de ficar esquecida, aliás, arrumada na sala, ao lado do aparador, mesmo no enfiamento da porta da rua. Desconfio que toda esta minha planificação não vá servir de muito. Já fiz o mesmo com chaves, carteiras e cartões, os de crédito e os de débito, incluindo o Bilhete de Identidade, também ele tributário de créditos e de débitos, se bem que de outra natureza. Há uns quantos que ainda não reavi. Felizmente, o Estado que tanto zela por mim lá me deu outra oportunidade incomparável de existir neste país, emitindo várias vezes o meu Bilhete de Identidade. Todavia, agora que subi de posto na hierarquia social, quero continuar a existir dessa maneira, mesmo que não possa reclamar méritos assinaláveis para tal e que seja refém, doravante, dos meus óculos. Acho que não tarda muito e começarei a pô-los na mesa-de-cabeceira para dormir mais descansado. Daqui a uns anos, ponho a dentadura dentro de um copo com água a fazer-lhes companhia. Por essa altura, espero ser menos os objectos que uso.
domingo, 19 de agosto de 2007
A primeira receita
Condições óbvias exigem que seja esta...batata a murro
Ingredientes: 150 ml azeite 8 batatas com casca 3 dentes de alho sal Preparação:
Lave bem as batatas e ponha-as num tabuleiro.
Tempere-as de sal e leve ao forno até assarem.
Descasque os alhos junte-os ao azeite numa frigideira. Leve a aquecer.
Retire as batatas do forno directamente para a mesa.
Cada pessoa ao servir-se de batatas dá um murro em cada uma e rega com o azeite temperado.
Ingredientes: 150 ml azeite 8 batatas com casca 3 dentes de alho sal Preparação:
Lave bem as batatas e ponha-as num tabuleiro.
Tempere-as de sal e leve ao forno até assarem.
Descasque os alhos junte-os ao azeite numa frigideira. Leve a aquecer.
Retire as batatas do forno directamente para a mesa.
Cada pessoa ao servir-se de batatas dá um murro em cada uma e rega com o azeite temperado.
Há cadeiras que parecem tronos...e não deviam
Da minha falta de tendência para veraneante a praias conspurcadas por vis ataques à democracia: de tudo um pouco.
Há várias coisas de que gosto numa praia. Tenho que dizer que me agrada vagamente o som das ondas a desfazer-se na areia, embora por vezes me assuste um pouco quando acordo em sobressalto sob o brasa do sol vespertino e penso que aquele rumorejar é um estardalhaço de louça feita em cacos na minha cozinha. Também gosto de enterrar os pés na areia, desde que ela não esteja muito quente e de ver as crianças a brincar na linha da água, alheios à contradição entre a sua pequenez e a imensidão oceânica. Não sou diferente dos outros se disser que abomino escaldões, mas talvez já divirja um pouco da maioria se disser que me aborreço de estar de horas a aprumar o bronzeado, enquanto contemplo o sol. Os astros nunca me disseram grande coisa, nem mesmo nas linhas proféticas do horóscopo, e costumo ser mais contemplativo da grande imensidão celeste mais para os lados da madrugada, quando a lua é uma velha gorda e muito branca e, ainda assim, de uma beleza comovente.
Quando penso em calçar os chinelos e atirar a toalha ao ombro, como quem carrega a pele de um animal morto, não me entusiasmo por aí além. Costumo ser renitente a tardes inteiras de veraneio, expressão usadas pelos especialistas em banhos, saladas e fatos de banho de última geração (ao que parece, tal como os telemóveis, são cada vez mais pequenos, de cores mais berrantes e servem para tudo menos para o intuito para que deveriam ter sido concebidos). Nessas alturas, percebo o fardo que carregam os que se dizem de uma minoria social ou étnica. Todos me olham de revés se digo que o sinónimo de Verão, para mim, não é praia, e os mais afoitos em floreados argumentativos, encontram mil e uma razões para me convencer do contrário, sem perceberem que estão destinados ao fracasso.
Às vezes, lá vou eu, a convencer-me que sou banhista, a fazer das tripas coração para que os chinelos não escorreguem nos pedais do carro, fazendo com que uma parede ou um outro condutor me obriguem a diligências junto das simpáticas meninas do call-center da seguradora.
Quando chego à praia, ponho-me a apreciar a disposição geral do dia. Os profissionais estendem com primor a toalha sobre a areia que já escalda, passam protector nos ombros e na ponta do nariz, analisam com um pormenor clínico a orientação do sol e talvez ainda calculem de cabeça a variação de radiação ao longo do dia, de tão habilitados que os vejo a preparar o banho de sol e de mar. Eu, por mim, acompanha-os a estender a toalha, mas depois começo logo a desobedecer ao preceito. Ponho a mão em riste sobre a testa e vejo a multidão que me rodeia, divirto-me com as crianças que fazem castelos de areia irreconhecíveis, que mais parecem pudins que saíram achatados do forno, e daí a bocado ponho-me a soprar pressurosamente, julgo que até pelos ouvidos o faço, porque já estou farto de ali estar. Fruto da minha desobediência ao código de conduta do veraneio, lá colecciono outro escaldão.
Não fico verdadeiramente chateado se, porventura, há nuvens esparsas que interrompem o colóquio solarengo ou se alguém sacode a areia da toalha e os cristais ásperos me caem em cima. Aquilo que me deixa pior que estragado é quando a regra mais básica da convivência numa praia seja quebrada: a democracia.
De entre as poucas coisas que eu realmente admiro em ir à praia é que tenho muito dificuldade em distinguir, assim à primeira vista, ricos e pobres, filhos pródigos ou enjeitados. E isso agrada-me. Está ali toda a gente reunida com o mesmo fito, todos sentadinhos ou deitados, a trabalhar para o mesmo, numa sincera partilha de circunstâncias e de recursos. Dentro de mim algo se revolve quando vejo um marmanjo, normalmente aí pelos seus cinquentas, de panamá enterrado até às orelhas para disfarçar a calva e umbigo bem proeminente como se fosse uma câmara-de-ar sobre a barriga redonda, atravessar a praia, com a sua cadeirinha debaixo do braço. Depois do desfile, faz ele menção, como vi ainda no outro dia, de se sentar mesmo no centro do areal, de esticar a cadeirinha ao comprido e de se sentar bem esparramado, com o 24 Horas aberto de par em par, como se fosse uma janela escancarada para o conhecimento, e de ainda puxar de um cachimbo para o pôr prazenteiramente ao canto da boca, enquanto nós, os outros, temos de gramar a toalha a afundar-se na areia movediça.
Não sei como estas veleidades tão perturbadoras do Estado igualitário ainda são permitidas. O mesmo raciocínio moral que faz um esforço por analisar as etiquetas da roupa que compramos para saber se é de origem fidedigna tem de se rebelar contra estes atentados sem pudor ao bem-estar da nossa nação. Um movimento tem de nascer contra as cadeiras de praia, na praia, mesmo que isto pareça um contra-senso e que aqueles que as compraram se sintam lesados por ter de encerrá-las na dispensa, lá em casa.
Quanto ao senhor que despertou todo este acervo de considerações, pois bem, creio que ainda estará sentado numa praia qualquer deste país, a deliciar-se com as notícias do 24 Horas e as baforadas intermináveis que dá no seu cachimbo. Ficava mais descansado se lesse um épico ou uma antologia poética. Não sei porquê, mas temo que isso não vá acontecer.
Francisco Simões
Há várias coisas de que gosto numa praia. Tenho que dizer que me agrada vagamente o som das ondas a desfazer-se na areia, embora por vezes me assuste um pouco quando acordo em sobressalto sob o brasa do sol vespertino e penso que aquele rumorejar é um estardalhaço de louça feita em cacos na minha cozinha. Também gosto de enterrar os pés na areia, desde que ela não esteja muito quente e de ver as crianças a brincar na linha da água, alheios à contradição entre a sua pequenez e a imensidão oceânica. Não sou diferente dos outros se disser que abomino escaldões, mas talvez já divirja um pouco da maioria se disser que me aborreço de estar de horas a aprumar o bronzeado, enquanto contemplo o sol. Os astros nunca me disseram grande coisa, nem mesmo nas linhas proféticas do horóscopo, e costumo ser mais contemplativo da grande imensidão celeste mais para os lados da madrugada, quando a lua é uma velha gorda e muito branca e, ainda assim, de uma beleza comovente.
Quando penso em calçar os chinelos e atirar a toalha ao ombro, como quem carrega a pele de um animal morto, não me entusiasmo por aí além. Costumo ser renitente a tardes inteiras de veraneio, expressão usadas pelos especialistas em banhos, saladas e fatos de banho de última geração (ao que parece, tal como os telemóveis, são cada vez mais pequenos, de cores mais berrantes e servem para tudo menos para o intuito para que deveriam ter sido concebidos). Nessas alturas, percebo o fardo que carregam os que se dizem de uma minoria social ou étnica. Todos me olham de revés se digo que o sinónimo de Verão, para mim, não é praia, e os mais afoitos em floreados argumentativos, encontram mil e uma razões para me convencer do contrário, sem perceberem que estão destinados ao fracasso.
Às vezes, lá vou eu, a convencer-me que sou banhista, a fazer das tripas coração para que os chinelos não escorreguem nos pedais do carro, fazendo com que uma parede ou um outro condutor me obriguem a diligências junto das simpáticas meninas do call-center da seguradora.
Quando chego à praia, ponho-me a apreciar a disposição geral do dia. Os profissionais estendem com primor a toalha sobre a areia que já escalda, passam protector nos ombros e na ponta do nariz, analisam com um pormenor clínico a orientação do sol e talvez ainda calculem de cabeça a variação de radiação ao longo do dia, de tão habilitados que os vejo a preparar o banho de sol e de mar. Eu, por mim, acompanha-os a estender a toalha, mas depois começo logo a desobedecer ao preceito. Ponho a mão em riste sobre a testa e vejo a multidão que me rodeia, divirto-me com as crianças que fazem castelos de areia irreconhecíveis, que mais parecem pudins que saíram achatados do forno, e daí a bocado ponho-me a soprar pressurosamente, julgo que até pelos ouvidos o faço, porque já estou farto de ali estar. Fruto da minha desobediência ao código de conduta do veraneio, lá colecciono outro escaldão.
Não fico verdadeiramente chateado se, porventura, há nuvens esparsas que interrompem o colóquio solarengo ou se alguém sacode a areia da toalha e os cristais ásperos me caem em cima. Aquilo que me deixa pior que estragado é quando a regra mais básica da convivência numa praia seja quebrada: a democracia.
De entre as poucas coisas que eu realmente admiro em ir à praia é que tenho muito dificuldade em distinguir, assim à primeira vista, ricos e pobres, filhos pródigos ou enjeitados. E isso agrada-me. Está ali toda a gente reunida com o mesmo fito, todos sentadinhos ou deitados, a trabalhar para o mesmo, numa sincera partilha de circunstâncias e de recursos. Dentro de mim algo se revolve quando vejo um marmanjo, normalmente aí pelos seus cinquentas, de panamá enterrado até às orelhas para disfarçar a calva e umbigo bem proeminente como se fosse uma câmara-de-ar sobre a barriga redonda, atravessar a praia, com a sua cadeirinha debaixo do braço. Depois do desfile, faz ele menção, como vi ainda no outro dia, de se sentar mesmo no centro do areal, de esticar a cadeirinha ao comprido e de se sentar bem esparramado, com o 24 Horas aberto de par em par, como se fosse uma janela escancarada para o conhecimento, e de ainda puxar de um cachimbo para o pôr prazenteiramente ao canto da boca, enquanto nós, os outros, temos de gramar a toalha a afundar-se na areia movediça.
Não sei como estas veleidades tão perturbadoras do Estado igualitário ainda são permitidas. O mesmo raciocínio moral que faz um esforço por analisar as etiquetas da roupa que compramos para saber se é de origem fidedigna tem de se rebelar contra estes atentados sem pudor ao bem-estar da nossa nação. Um movimento tem de nascer contra as cadeiras de praia, na praia, mesmo que isto pareça um contra-senso e que aqueles que as compraram se sintam lesados por ter de encerrá-las na dispensa, lá em casa.
Quanto ao senhor que despertou todo este acervo de considerações, pois bem, creio que ainda estará sentado numa praia qualquer deste país, a deliciar-se com as notícias do 24 Horas e as baforadas intermináveis que dá no seu cachimbo. Ficava mais descansado se lesse um épico ou uma antologia poética. Não sei porquê, mas temo que isso não vá acontecer.
Francisco Simões
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
História da contenda entre o meu buço e o Domingo Desportivo
De como o meu buço foi aselha em matérias de masculinidade e a minha mãe sofreu os seus primeiros reveses, por via da minha desobediência. História de um inultrapassável trauma de infância, porque é do princípio que a história deve começar.
Comecei a fazer-me um homem ainda antes da navalha gélida me desfazer as penugens imberbes da puberdade ou da minha voz deixar de ser um falsete insuportável. Não esperei pelos prenúncios da masculinidade para me julgar crescido e não creio, hoje, que a primeira vez que desfiz o buço tenha contribuído grandemente para esse sentido de invulnerabilidade que todos os homens gostam de reclamar diante do espelho e, depois, à primeira menina dilecta dos seus olhos e a todas as outras que vêm a seguir.
Antes que a biologia cumprisse todos os seus desígnios, já eu a fintava com uma desobediência lenta e daninha. Começou ela, a desobediência, a manifestar-se aí pelos seis, sete anos, quando elegi o Domingo Desportivo como o programa televisivo da minha devoção. A minha mãe bem desovava ordens em catadupa, recorria ao dó e ao si para tanto me fazer ver, com complacência, que aqueles não eram hábitos para os meninos da minha idade, como bem depressa me cerrava os dentes, com um carinho que só hoje sou capaz de compreender. Levei sempre a minha avante, ora porque fincava o pé e dizia que da frente da televisão não saía, ora porque esperava pelos roncos cavernosos do seu sono caído por um precipício abaixo, para logo em pontinhas de pés e enrolado até à cabeça num cobertor muito grosso, me enfiar nas reentrâncias deixadas pelas portas mal fechadas entre o meu quarto e a sala, onde estava a televisão.
O aparelho dessa altura era um Schaub Lorenz, um cubículo revestido a folheado que imitava madeira, de ecrã convexo, segundo os entendidos, um primor de tecnologia da época. Não acredito que fosse assim tanto, pois volta e meia avariava e deitava um cheiro a queimado pelas reentrâncias traseiras da caixa que me lembrava sempre os porcos chamuscados nas matanças. Era esse receptor que contribuía ainda mais para o meu sentido de adulto antes do tempo, porque à desobediência com venerava a minha mãe tinha eu de juntar doses improváveis de paciência para o adiantado da hora, em resposta à programação fatídica, e sem alternativa, com que a RTP-A ocupava a emissão, antes de chegar o programa de Lisboa. O ror de produções de qualidade duvidosa começava logo a seguir ao Telejornal, com os resumos poeirentos do Teledesporto, filmados pelos pelados dos Açores fora. Logo progredia o serviço público, nos seus intentos de entretenimento, com um concurso para toda a família ou um espectáculo de variedades, como há uns anos se chamavam certas galas. Culminava todo o esforço em agradar o telespectador com uma série americana de nomeada e pouco mais. Assim de repente, vêm-me à memória o Dallas e os Soldados da Fortuna.
Só lá para a meia-noite, quando os meus ombros tinham já escorregado pelo verniz da mesa abaixo vezes sem conta e o meu queixo tinha batido com estrondo no seu tampo maciço, é que entrava o genérico tão ansiado.
Mesmo quando o meu buço começou a despontar e os meus interesses, felizmente, se fizeram mais variados, permaneci fiel ao Domingo Desportivo e aos seus resumos alargados e detalhados do campeonato português e do então chamado “futebol lá de fora”. Esse epíteto sempre dava às ligas estrangeiras outro aprumo e habilidade que a nossa não tinha.
Para mim, o Domingo tinha obrigatoriamente de findar com o fecho de emissão e as bandeiras a flamejar ao som dos hinos, para que não houvesse cá dúvidas em matéria de soberanias e autonomias.
Continuei a ver o Domingo Desportivo com a mesma devoção, mesmo quando começaram a ser introduzidos os pormenores irrelevantes, como o público no estúdio, de cachecol ciosamente enrolado ao pescoço, as deliciosas imagens virtuais e os comentadores viperinos, esses sim muito dados a polémicas com muito pouco de real.
De há uns tempos para cá, o meu início de semana é sempre mais cinzento do que a segunda-feira que amanhece, mesmo quando o chumbo matinal ameaça trovejar. Desde que o futebol emigrou todo para TVI e que esta o retocou com as repetições sucessivas e dos mais variados ângulos daquelas jogadas que estão votadas ao limbo da dúvida e um painel de comentadores que, não sendo diferente de tantos outros, tem mais tempo de antena do que o futebol jogado, tenho sentido aquela confusão do luto. É um luto dos piores, sem morte previsível ou corpo presente, porque se limita a aniquilar os objectos ou as situações da nossa devoção, deixando-nos a tactear um pequeno vácuo.
Não tenho a ilusão de que hoje fosse achar os jogos de antigamente mais fulgurantes e espectaculares do que os actuais. Custa-me, por vezes, a acreditar que vibrei com certas jogadas e determinadas vitórias que mais pareciam a desossa de carcaças no matadouro. E os carniceiros, ainda por cima, eram todos da minha equipa.
Entretanto, querem convencer-me a todo o custo que sou consumidor e não adepto, que se quiser ver a bola tenho de pagar (e bem) e que se não quiser, bom, tenho de esperar como antigamente, mas sem direito a hinos emocionados no fim da emissão. Tenho feito uma opção difícil entre as duas soluções: nem uma, nem outra. Felizmente que se foi o bigode virgem e que hoje tenho a barba bem cerrada. Se assim não fosse, não sei se aguentaria acordar a cada segunda-feira, pela manhã. Por sinal, nesse dia raramente a faço.
Comecei a fazer-me um homem ainda antes da navalha gélida me desfazer as penugens imberbes da puberdade ou da minha voz deixar de ser um falsete insuportável. Não esperei pelos prenúncios da masculinidade para me julgar crescido e não creio, hoje, que a primeira vez que desfiz o buço tenha contribuído grandemente para esse sentido de invulnerabilidade que todos os homens gostam de reclamar diante do espelho e, depois, à primeira menina dilecta dos seus olhos e a todas as outras que vêm a seguir.
Antes que a biologia cumprisse todos os seus desígnios, já eu a fintava com uma desobediência lenta e daninha. Começou ela, a desobediência, a manifestar-se aí pelos seis, sete anos, quando elegi o Domingo Desportivo como o programa televisivo da minha devoção. A minha mãe bem desovava ordens em catadupa, recorria ao dó e ao si para tanto me fazer ver, com complacência, que aqueles não eram hábitos para os meninos da minha idade, como bem depressa me cerrava os dentes, com um carinho que só hoje sou capaz de compreender. Levei sempre a minha avante, ora porque fincava o pé e dizia que da frente da televisão não saía, ora porque esperava pelos roncos cavernosos do seu sono caído por um precipício abaixo, para logo em pontinhas de pés e enrolado até à cabeça num cobertor muito grosso, me enfiar nas reentrâncias deixadas pelas portas mal fechadas entre o meu quarto e a sala, onde estava a televisão.
O aparelho dessa altura era um Schaub Lorenz, um cubículo revestido a folheado que imitava madeira, de ecrã convexo, segundo os entendidos, um primor de tecnologia da época. Não acredito que fosse assim tanto, pois volta e meia avariava e deitava um cheiro a queimado pelas reentrâncias traseiras da caixa que me lembrava sempre os porcos chamuscados nas matanças. Era esse receptor que contribuía ainda mais para o meu sentido de adulto antes do tempo, porque à desobediência com venerava a minha mãe tinha eu de juntar doses improváveis de paciência para o adiantado da hora, em resposta à programação fatídica, e sem alternativa, com que a RTP-A ocupava a emissão, antes de chegar o programa de Lisboa. O ror de produções de qualidade duvidosa começava logo a seguir ao Telejornal, com os resumos poeirentos do Teledesporto, filmados pelos pelados dos Açores fora. Logo progredia o serviço público, nos seus intentos de entretenimento, com um concurso para toda a família ou um espectáculo de variedades, como há uns anos se chamavam certas galas. Culminava todo o esforço em agradar o telespectador com uma série americana de nomeada e pouco mais. Assim de repente, vêm-me à memória o Dallas e os Soldados da Fortuna.
Só lá para a meia-noite, quando os meus ombros tinham já escorregado pelo verniz da mesa abaixo vezes sem conta e o meu queixo tinha batido com estrondo no seu tampo maciço, é que entrava o genérico tão ansiado.
Mesmo quando o meu buço começou a despontar e os meus interesses, felizmente, se fizeram mais variados, permaneci fiel ao Domingo Desportivo e aos seus resumos alargados e detalhados do campeonato português e do então chamado “futebol lá de fora”. Esse epíteto sempre dava às ligas estrangeiras outro aprumo e habilidade que a nossa não tinha.
Para mim, o Domingo tinha obrigatoriamente de findar com o fecho de emissão e as bandeiras a flamejar ao som dos hinos, para que não houvesse cá dúvidas em matéria de soberanias e autonomias.
Continuei a ver o Domingo Desportivo com a mesma devoção, mesmo quando começaram a ser introduzidos os pormenores irrelevantes, como o público no estúdio, de cachecol ciosamente enrolado ao pescoço, as deliciosas imagens virtuais e os comentadores viperinos, esses sim muito dados a polémicas com muito pouco de real.
De há uns tempos para cá, o meu início de semana é sempre mais cinzento do que a segunda-feira que amanhece, mesmo quando o chumbo matinal ameaça trovejar. Desde que o futebol emigrou todo para TVI e que esta o retocou com as repetições sucessivas e dos mais variados ângulos daquelas jogadas que estão votadas ao limbo da dúvida e um painel de comentadores que, não sendo diferente de tantos outros, tem mais tempo de antena do que o futebol jogado, tenho sentido aquela confusão do luto. É um luto dos piores, sem morte previsível ou corpo presente, porque se limita a aniquilar os objectos ou as situações da nossa devoção, deixando-nos a tactear um pequeno vácuo.
Não tenho a ilusão de que hoje fosse achar os jogos de antigamente mais fulgurantes e espectaculares do que os actuais. Custa-me, por vezes, a acreditar que vibrei com certas jogadas e determinadas vitórias que mais pareciam a desossa de carcaças no matadouro. E os carniceiros, ainda por cima, eram todos da minha equipa.
Entretanto, querem convencer-me a todo o custo que sou consumidor e não adepto, que se quiser ver a bola tenho de pagar (e bem) e que se não quiser, bom, tenho de esperar como antigamente, mas sem direito a hinos emocionados no fim da emissão. Tenho feito uma opção difícil entre as duas soluções: nem uma, nem outra. Felizmente que se foi o bigode virgem e que hoje tenho a barba bem cerrada. Se assim não fosse, não sei se aguentaria acordar a cada segunda-feira, pela manhã. Por sinal, nesse dia raramente a faço.
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