De como a mesma palavra pode expressar ideias diferentes e como outras, pequeninas e singelas, alteram o final de uma história. Algures, os canais codificados são esconjurados.
Quando aprendi na escola as conjunções, tive a nítida sensação que a gramática, para mim, era assunto encerrado. Finalmente estava ali um ensinamento absoluto, que condensava todos os anteriores, ao ponto de lhes retirar importância ou novidade. Essa sensação não era inédita. Já tinha passado pelo mesmo quando no segundo ciclo aprendi a fazer as árvores que apartavam o sujeito dos respectivos predicados e complementos, se por acaso este tivesse o mérito de os mostrar. O mesmo sucedeu quando, na matemática, dominei o teorema de pitágoras ou as enaquações. Contas feitas, as da matemática e as da vida, o deslumbramento foi algo intrínseco a tantas descobertas que, sempre que uma se impunha, logo eu pensava que essa era, porventura, aquela suprema, que condensava todos os enigmas da criação do mundo.
No caso particular das conjuções, pareceu-me sobretudo brilhante, e ao mesmo tempo aterrador, que umas pequeninas palavras colocadas entre duas orações pudessem sintetizar com aquele desembaraço tantas emoções e peripécias. Daí a perceber um jogo de fatalidades nos exercícios que a professora de português nos mandava para casa não demorou muito. Com a ligeireza, direi mesmo a displicência de uma escolha fortuita, tratava eu de ir a uma tabela que agrupava as conjunções em copulativas, adversativas, conclusivas, disjuntivas e explicativas e logo me punha a inventar catástrofes ou finais felizes. Creio que essa foi a primeira e única vez que me senti poderoso. Mas convenhamos que era fácil, tratava-se de uma simples luta entre ímpetos adolescentes e um caderno de argolas pautado, ainda em branco.
Ensinou-me essa experiência muita coisa, a começar pelos rigores gramaticais. Felizmente que não se ficou por aí a lição, se bem que a professora, uma mulher denodada, com certeza, como tantos outros professores, não estivesse verdadeiramente empenhada em que retirasse conclusões morais de matéria tão inócua. A verdade é que acabei por fazê-lo, não tanto pelo seu empenho no meu domínio correcto da língua, mas antes porque se multiplicaram os exemplos à minha volta que me ajudaram a elaborar semelhantes raciocínios.
A minha labuta interna no que ao uso de conjuções diz respeito tem sido todo posto na contradição entre as copulativas e as adversativas. Uso as primeiras e vejo os opostos a dar alegramente as mãos, com juras de fidelidade e promessas de ajuda mútua, até ao ponto final. Uso as segundas, e felizmente vejo um desacordo, uma ligeira troca de argumentos, talvez um duelo de cavalheiros, com a respectiva escolha de armas e um ponto de exclamação a condizer. Se vejo as pessoas insistirem nas conjunções copulativas, começo a suspeitar das suas verdadeiras intenções e logo me convenço que há por ali uma ditadura de politicamente correcto. Se, porventura, vejo a repetição mecânica das conjunções adversativas, convenço-me que se acumula, rapidamente, um gosto congénito pela contradição persistente, o que volta a aborrecer-me.
Como algo em excesso não é um problema novo e as suas consequências são muitas e variadas, embora ultimamente só se fale na obesidade, vejo que o meu fascínio pelas conjuções não se prenderá, também, com o facto de uns serem mais solidários e outros mais contraditórios. O que me causa uma certa perplexidade é quando a conjução é usada, mas o sentido da frase se despista por um atalho qualquer.
O exemplo bem claro do que digo é aquele que transcrevi para o título: o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv. Ora bem, postas numa contenda entre si, por força da artimanha daquele mas, o interlocutor que se debata com semelhante afirmação e que queira percebê-la em toda a sua extensão vê-se um tanto confundido. É que assim enunciada, esta afirmação põe-nos perante um primeiro paradoxo: ou a televisão não é televisão ou então é a Sporttv que não o é, pois a primeira não pode ser o contrário da segunda. Mas mais alcança esta análise fria, à luz de pressupostos gramaticais, tabelas lógicas e outros tantos princípios que se forem inventando para pôr ordem nesta nossa cabecinha. É que poderei eu ou qualquer outra pessoa ser também tentado a pensar que esta frase significa que o jogo dá na televisão, mas que esta por si só, canal generalista, ao vivo e a cores, como alguns se contentavam até há uns tempos, já não basta. Televisão a sério, como dever ser, é a Sporttv.
O que vale é que a comunicação é muito mais que palavras. O timbre, a disposição dos rugas, a própria dilatação das pupilas denuncia logo o que queremos verdadeiramente dizer. A frase em causa, do ponto de vista lógico, não poderia ser menos certeira, mas o que se pretende dizer, isso aí é do domínio comum, universal, mesmo. Quando alguém se põe a dizer que o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv, a entoação tristonha significa que lá se vai encostar a orelha outra vez ao transístor ou então que é preciso rumar ao café e ser bafejado pela sorte de o receptor estar ligado no jogo que se quer ver na Sporttv 1 e não a partida que à mesma hora se joga na Sporttv 2. Tenho a nítida sensação que vou ouvir o mesmo comentário mais vezes. Aliás, estou mesmo certo que o vou repetir com alguma frequência. Ainda bem que, por enquanto, somos uma maioria.
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