De como o conhecimento mútuo não pode ser mensurado apenas pelo tempo. Os reducionistas dirão que é apenas uma questão de tomates. E vai daí, talvez seja.
Uma das tarefas que mais pôs em causa a minha permanência na escola foi o picotado. Nunca me dei com a exigência de reduzir as margens de brinquedos, bonecos sorridentes e frutas gordas e sumarentas a uma profusão de pontos precisos, furadinhos uns atrás dos outros. Picotar as extremidades do desenho ou da figura ainda era o menos, pois na primeira parte dessa tarefa um tanto meticulosa para o atabalhoamento dos meus seis anos, até nem em saía mal. O desenho ficava bem recortadinho, pronto a ser arrancado ao resto do papel que no fim daquela árdua façanha restaria no canto da carteira como se fosse a pele enjeitada de um animal.
O pior era quando a minha destreza canhota, tanto a manual como a dos instintos, se punha a desfazer o picotado propriamente dito. O descalabro que logo se reunia valia-me as mais veementes reprimendas por parte das minhas professoras, indignadas com a minha falta de jeito para as artes manuais. O pior nem era ouvir aqueles raspanetes, pois eram perfeitamente justificados. Bem vistas as coisas, talvez ainda fossem demasiado brandos, embora não creia que juntar-lhes virulência pudesse ter despertado em mim qualquer ímpeto artístico. O pior era mesmo o sentimento de culpa por todos os dias cometer uma qualquer atrocidade. Se não era um peixe que ficava de guelra palpitante e olho lancinado de dor, porque lhe arrancara uma barbatana, era uma menina que levava as mãos à cara para esconder a vergonha de quem tinha acabado de ficar sem uma trança. O meu colega do lado, já não lembro bem quem, ficava a rir-se de mim e da menina.
Eu e esse meu colega do lado crescemos, mas não acredito que ele se tenha tornado mais sensível. Passado tanto tempo, vivo mais descansado por saber que um dia, quando tiver um filho, ele não vai ter de picotar figuras e desenhos na escola. Algures, o esclarecimento dos pedagogos percebeu que os picotados eram uma das mais inúteis tarefas escolares. Felizmente que há maneiras e maneiras de picotar e que umas são bem mais curiosas, ainda que sejam, também, mais difíceis de dominar.
Todos sabemos de uns quantos felizardos que sabem muito bem definir as margens dos nossos interesses e manias, que logo nos topam os defeitos ou as virtudes, como se vissem em nós aquelas instruções dos pacotes ou das margens dos antigos cupões dos concursos, com um tracejado à frente dos dois bicos de uma tesoura, a assinalar por onde se deve recortar. Alguns são mesmos mestres em vencer as nossas defesas ou uma certa dose de timidez, para logo nos encontrar a abertura fácil da alma.
Tenho conhecido algumas dessas pessoas que o venerando senso-comum insiste em reconhecer como aqueles seres capazes de, em menos de nada, nos fazer um raio-x. Ora, perante esta definição simples da inteligência emocional costumo levantar algumas objecções, primeiro porque rejeito tudo quanto faça lembrar o cheiro a éter, mesmo que vagamente, depois porque aquela sensação de estar tão despido que até me vêem os ossos também não me agrada particularmente. Além disso, é como se a responsabilidade dos encontros fortuitos fosse apenas minha, quando afinal, nem que seja por uma conjugação de acasos, a outra pessoa também lá esteve e se predispôs a analisar-me.
O sucesso causado por uma primeira impressão é proporcional à sensação de, por alguma razão, logo ali, olhos nos olhos, sentirmos que se criou uma intimidade repentina, mas com fundamento. É nessas alturas que alguém decide seguir o nosso picotado e nos descobre a tal abertura fácil. Daí em diante, é de esperar que façam gato-sapato de nós.
Há uma senhora vendedora no mercado que soube encontrar esse meu sistema de abertura fácil. Daí a fidelizar-me como cliente da sua banca foi o tempo do pagamento, do respectivo troco e das promessas de regresso no fim-de-semana seguinte. Tudo sucedeu num Sábado de manhã em que andava a rondar a banca da vendedora. Sei que tinha uma listinha amarrotada no bolso ou nas traseiras da minha memória, mas o meu intuito verdadeiro e mais elaborado era o de comprar tomate. A fruta poderia ter a calibragem mais variada, os legumes podiam ser mais ou menos frescos, mas já o tomate, bom, esse tinha de corresponder a requisitos bem precisos. Como o queria assar no forno, sabia que tinha de estar bem maduro e que tinha de ser bem redondo para ficar bonito na travessa. Andava eu por ali a cirandar havia já um bom bocado e a senhora olhava-me atentamente, na azáfama do atendimento aos sucessivos fregueses. Percebi que ela estava à espera de encontrar uma nesga de tempo para me dizer algo, pelo que me demorei mais um bocado, entre a análise clínica a um raminho de salsa e a verificação à consistência de um par de pêssegos. Assim que pôde, o indicador da senhora chamou-me com um ar descarado de conluio. Eu hesitei, mas depois de farolar em redor para ver se ninguém nos topava, tornou ela a chamar-me. Como não via perigo, mas também não reconhecia necessidade de tanto segredo, continuei um bocado indeciso. Por fim, lá avancei e assim que cheguei ao outro lado da bancada, logo a vendedora me perguntou retoricamente, ao puxar de um cesto escondido sob a bancada:
- É isto que procura, não é verdade?
Sei que textualmente, a pergunta não foi esta, mas isso pouco interessava. O que realmente interessava é que lá estava ele, redondinho, bem vermelho, pronto a ir ao forno, o tomate por que eu ansiava. A senhora sorriu triunfante, certa que o seu gesto fora preciso. Eu, por mim, acenei com a cabeça, já depois de ter posto um olho nas redondezas, para me certificar, também, que ninguém nos vigiava. No fim, agradeci, mas contas feitas, senti que continuava em dívida com a senhora. Essa tinha sido, afinal, a sua maior conquista. Daí em diante, tornei-me cliente assíduo daquela banca de mercado, para saldar esse e outros favores de uma intimidade simples, mas eficaz, recortada com precisão no picotado dos meus insondáveis desejos. Ultimamente, a conta por pagar acumulou juros. Não tenho lá ido, como era hábito ao Sábado de manhã. Vou arranjando desculpas, umas mais plausíveis, outras sem sentido. No Inverno vou voltar a querer tomate do bom. Nessa altura, tenho a certeza que vou voltar.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário