domingo, 11 de novembro de 2007

E agora?

De como um parâmetro faz toda a diferença, nomeadamente numas análises de laboratório. Porque nem sempre os mais doutos e saudáveis conselheiros são os mais velhos.


Todos temos uma maneira muito própria de lidar com a mortalidade.Uns encontram maneiras de a ridicularizar com anedotas e trejeitos, alguns são hábeis na sua minimização, preferindo decompô-la em decassílabos poéticos, a maior parte, na qual me incluo, simplesmente evita dela falar ou nela pensar. Sabemos quão súbita ela pode ser, temos a certeza de que as suas consequências são irreversíveis e devastadoras, mas tendemos sempre a acreditar em alternativas.
Felizmente que nem sempre a morte se manifesta com virulência, obrigando-nos a bater continência e obedecer às suas ordens. Costuma ela ser insidiosa, uma pista aqui, um vestígio acolá. Afinal, responde ela ao preceito proverbial que nem sempre se lhe reconhece: quem te avisa teu amigo é.
Tenho tido o meu quinhão de avisos. É certo que deles não se têm feito editais requintados e passíveis de afixação pública, de acordo com as exigências legais. Agora que tenho sido alertado para moderar certos e determinados excessos, isso não posso negar.
O mais recente veio certificado por um laboratório, muito competente, com certeza, por solicitação de um médico que estive para consultar vai para quase dois anos. Assim que enchi o peito como um balão e me pus à sua frente debitando as minhas queixas alérgicas, já sabia que me iriam ser recomendadas análises ao sangue. Pois muito bem, que assim seja, disse eu cheio de coragem, como se já não soubesse que estava essa consequência ditada pelo protocolo médico para semelhantes situações. Não contente com a simulação patética, pois os meus dotes congénitos para a representação são escassos, fingi que era um daqueles pacientes preoupados, sem ser hipocondríaco, que respeita todas as campanhas públicas que comecem pela palavra prevenção. Foi imbuído desse fingimento que lá pedi ao senhor doutor que, já agora, me passasse uma requisição para uma análise geral ao sangue. Ele não rejubilou, mas lá me fez a vontade com profissionalismo, preenchendo todos os quadriculados necessários e assinando no fim do formulário, com uma letra revolta e incompreensível.
Daí a dias soube dos resultados. Era um homem saudável (e talvez nunca tivesse deixado de ser) e as minhas alergias eram inespecíficas. Bastava-me fazer a medicação de acordo com os ditames sazonais, para combater a dita maleita. Era simples, pensei eu, enquanto alguns animais mudavam o pêlo e a vegetação de folha caducada se despia ou, pelo contrário, encontrava um novo vigor, eu tomava diariamente o meu anti-histamínico. Nada mais fácil. Quando pensava que desta me tinha safado como aqueles alunos espertalhões, ou seja, com boa nota e sem muito esforço, ficou um aviso, do outro lado da linha: cuidado com o colesterol. Consultei novamente os resultados e lá estava o motivo do alerta. Realmente, ainda que fosse por quatro valores, o meu colesterol estava acima do patamar superior admitido.
Desde que descobri esse indício fugaz de degenerescência, tenho dado comigo a vaguear pelos baldios insanos das promessas que ficarão por cumprir, muito antes sequer da época em que costumam ser pródigos semelhantes ensejos, lá para os lados da passagem de ano. Ainda não me pus a analisar na prateleira do supermercado os produtos supostamente milagrosos, aqueles de natureza light ou que exigem obstinação no seu consumo, pois tem que ser diário e regular, sem que ninguém veja nisto um vício. Porém, em casa já decidi começar a cortar nas gorduras e nos molhos. Bom, quanto à primeira parte da minha decisão, nem é difícil cumprir com ela, o pior será renunciar aos molhos. Também já me pus a pensar em fazer exercício. Primeiro consultei a balança, vi que menos cinco quilinhos não faziam mal a ninguém e daí a lançar-me nesse empreendimento foi um ápice. Ainda não saí da fase de projecto, como aliás acontece a muitas obras neste país, mas tenho a dizer que tenho enfrentado algumas dificuldades. Até gosto de desporto, mas para mim o exercício tem de ser colectivo e posto ao serviço de um objectivo comum (um golo, de preferência). Este é um problema que ainda tenho de resolver.
Tenho, no entanto, de confessar que nem tem sido a minha tendência para promessas e devaneios que me tem constrangido mais em toda esta situação, mas sim umas quantas contradições. A mais recente, e a que se vem tornando mais comum, sucedeu ainda no outro dia, numa festa de aniversário. Estávamos todos por ali na sala, em redor de uma mesa tentadora, de uma tarte de côco a um pudim de maracujá estava tudo com um óptimo aspecto, e de repente dou comigo a inspeccionar todos os ângulos da referida selecção de doces, com a atenção demorada e obsessiva de um explorador que faz um trabalho para a National Geografic. Pois bem, ao fim de um bocado tive de justificar perante a audiência, que já me olhava com uma certa estranheza, que tinha de reduzir os impactos negativos da sobremesa. Como permaneceram todos nas trevas da ignorância, lá troquei por miúdos e disse que o médico me avisara dos perigos do meu colesterol um pouco elevado. Bom, depressa se organizou um painel de especialistas, quase todos sobreviventes da mesma experiência, que dos cuidados alimentares à eficácia de produtos naturais, como os comprimidos de gérmen de trigo, me aconselhou com a convicção de um grupo de auto-ajuda. Tantas e tão variadas recomendações seriam, por certo, convincentes e até bem-vindas se, ao mesmo tempo que eram debitadas, não tivessem as ditas senhoras o pratinho de sobremesa a transbordar de três e quatro variedades de doces e eu me tivesse de contentar com uma fatia de um pudim de noz. Pelos vistos não disfarcei os olhar reprovador. A resposta foi daquelas que se traz no bolso e tida por eficaz: só faço destes pecados em dias de festa.
Tenho de dizer que em poucas situações me senti tão ridicularizado na minha vida. Ali estava eu, impedido por conselho médico em insistir em determinadas parvoíces e em meu redor, aquelas senhoras com mais trinta e quarenta anos do que eu debitavam soluções rápidas e mágicas, enquanto cometiam os seus pecados veniais e de ocasião. Por isso, já decidi: quanto à alimentação hei-de fazer o que puder e o exercício será passatempo, em vez de uma preocupação com a saúde. Quanto à vergonha que tenho sentido por me terem diagnosticado colesterol, vou inscrever essa minha nova condição no currículo. Tenho a certeza que alguém há-de mostrar um respeito reverente pela minha nova condição de mortal.

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