Condições óbvias exigem que seja esta...batata a murro
Ingredientes: 150 ml azeite 8 batatas com casca 3 dentes de alho sal Preparação:
Lave bem as batatas e ponha-as num tabuleiro.
Tempere-as de sal e leve ao forno até assarem.
Descasque os alhos junte-os ao azeite numa frigideira. Leve a aquecer.
Retire as batatas do forno directamente para a mesa.
Cada pessoa ao servir-se de batatas dá um murro em cada uma e rega com o azeite temperado.
domingo, 19 de agosto de 2007
Há cadeiras que parecem tronos...e não deviam
Da minha falta de tendência para veraneante a praias conspurcadas por vis ataques à democracia: de tudo um pouco.
Há várias coisas de que gosto numa praia. Tenho que dizer que me agrada vagamente o som das ondas a desfazer-se na areia, embora por vezes me assuste um pouco quando acordo em sobressalto sob o brasa do sol vespertino e penso que aquele rumorejar é um estardalhaço de louça feita em cacos na minha cozinha. Também gosto de enterrar os pés na areia, desde que ela não esteja muito quente e de ver as crianças a brincar na linha da água, alheios à contradição entre a sua pequenez e a imensidão oceânica. Não sou diferente dos outros se disser que abomino escaldões, mas talvez já divirja um pouco da maioria se disser que me aborreço de estar de horas a aprumar o bronzeado, enquanto contemplo o sol. Os astros nunca me disseram grande coisa, nem mesmo nas linhas proféticas do horóscopo, e costumo ser mais contemplativo da grande imensidão celeste mais para os lados da madrugada, quando a lua é uma velha gorda e muito branca e, ainda assim, de uma beleza comovente.
Quando penso em calçar os chinelos e atirar a toalha ao ombro, como quem carrega a pele de um animal morto, não me entusiasmo por aí além. Costumo ser renitente a tardes inteiras de veraneio, expressão usadas pelos especialistas em banhos, saladas e fatos de banho de última geração (ao que parece, tal como os telemóveis, são cada vez mais pequenos, de cores mais berrantes e servem para tudo menos para o intuito para que deveriam ter sido concebidos). Nessas alturas, percebo o fardo que carregam os que se dizem de uma minoria social ou étnica. Todos me olham de revés se digo que o sinónimo de Verão, para mim, não é praia, e os mais afoitos em floreados argumentativos, encontram mil e uma razões para me convencer do contrário, sem perceberem que estão destinados ao fracasso.
Às vezes, lá vou eu, a convencer-me que sou banhista, a fazer das tripas coração para que os chinelos não escorreguem nos pedais do carro, fazendo com que uma parede ou um outro condutor me obriguem a diligências junto das simpáticas meninas do call-center da seguradora.
Quando chego à praia, ponho-me a apreciar a disposição geral do dia. Os profissionais estendem com primor a toalha sobre a areia que já escalda, passam protector nos ombros e na ponta do nariz, analisam com um pormenor clínico a orientação do sol e talvez ainda calculem de cabeça a variação de radiação ao longo do dia, de tão habilitados que os vejo a preparar o banho de sol e de mar. Eu, por mim, acompanha-os a estender a toalha, mas depois começo logo a desobedecer ao preceito. Ponho a mão em riste sobre a testa e vejo a multidão que me rodeia, divirto-me com as crianças que fazem castelos de areia irreconhecíveis, que mais parecem pudins que saíram achatados do forno, e daí a bocado ponho-me a soprar pressurosamente, julgo que até pelos ouvidos o faço, porque já estou farto de ali estar. Fruto da minha desobediência ao código de conduta do veraneio, lá colecciono outro escaldão.
Não fico verdadeiramente chateado se, porventura, há nuvens esparsas que interrompem o colóquio solarengo ou se alguém sacode a areia da toalha e os cristais ásperos me caem em cima. Aquilo que me deixa pior que estragado é quando a regra mais básica da convivência numa praia seja quebrada: a democracia.
De entre as poucas coisas que eu realmente admiro em ir à praia é que tenho muito dificuldade em distinguir, assim à primeira vista, ricos e pobres, filhos pródigos ou enjeitados. E isso agrada-me. Está ali toda a gente reunida com o mesmo fito, todos sentadinhos ou deitados, a trabalhar para o mesmo, numa sincera partilha de circunstâncias e de recursos. Dentro de mim algo se revolve quando vejo um marmanjo, normalmente aí pelos seus cinquentas, de panamá enterrado até às orelhas para disfarçar a calva e umbigo bem proeminente como se fosse uma câmara-de-ar sobre a barriga redonda, atravessar a praia, com a sua cadeirinha debaixo do braço. Depois do desfile, faz ele menção, como vi ainda no outro dia, de se sentar mesmo no centro do areal, de esticar a cadeirinha ao comprido e de se sentar bem esparramado, com o 24 Horas aberto de par em par, como se fosse uma janela escancarada para o conhecimento, e de ainda puxar de um cachimbo para o pôr prazenteiramente ao canto da boca, enquanto nós, os outros, temos de gramar a toalha a afundar-se na areia movediça.
Não sei como estas veleidades tão perturbadoras do Estado igualitário ainda são permitidas. O mesmo raciocínio moral que faz um esforço por analisar as etiquetas da roupa que compramos para saber se é de origem fidedigna tem de se rebelar contra estes atentados sem pudor ao bem-estar da nossa nação. Um movimento tem de nascer contra as cadeiras de praia, na praia, mesmo que isto pareça um contra-senso e que aqueles que as compraram se sintam lesados por ter de encerrá-las na dispensa, lá em casa.
Quanto ao senhor que despertou todo este acervo de considerações, pois bem, creio que ainda estará sentado numa praia qualquer deste país, a deliciar-se com as notícias do 24 Horas e as baforadas intermináveis que dá no seu cachimbo. Ficava mais descansado se lesse um épico ou uma antologia poética. Não sei porquê, mas temo que isso não vá acontecer.
Francisco Simões
Há várias coisas de que gosto numa praia. Tenho que dizer que me agrada vagamente o som das ondas a desfazer-se na areia, embora por vezes me assuste um pouco quando acordo em sobressalto sob o brasa do sol vespertino e penso que aquele rumorejar é um estardalhaço de louça feita em cacos na minha cozinha. Também gosto de enterrar os pés na areia, desde que ela não esteja muito quente e de ver as crianças a brincar na linha da água, alheios à contradição entre a sua pequenez e a imensidão oceânica. Não sou diferente dos outros se disser que abomino escaldões, mas talvez já divirja um pouco da maioria se disser que me aborreço de estar de horas a aprumar o bronzeado, enquanto contemplo o sol. Os astros nunca me disseram grande coisa, nem mesmo nas linhas proféticas do horóscopo, e costumo ser mais contemplativo da grande imensidão celeste mais para os lados da madrugada, quando a lua é uma velha gorda e muito branca e, ainda assim, de uma beleza comovente.
Quando penso em calçar os chinelos e atirar a toalha ao ombro, como quem carrega a pele de um animal morto, não me entusiasmo por aí além. Costumo ser renitente a tardes inteiras de veraneio, expressão usadas pelos especialistas em banhos, saladas e fatos de banho de última geração (ao que parece, tal como os telemóveis, são cada vez mais pequenos, de cores mais berrantes e servem para tudo menos para o intuito para que deveriam ter sido concebidos). Nessas alturas, percebo o fardo que carregam os que se dizem de uma minoria social ou étnica. Todos me olham de revés se digo que o sinónimo de Verão, para mim, não é praia, e os mais afoitos em floreados argumentativos, encontram mil e uma razões para me convencer do contrário, sem perceberem que estão destinados ao fracasso.
Às vezes, lá vou eu, a convencer-me que sou banhista, a fazer das tripas coração para que os chinelos não escorreguem nos pedais do carro, fazendo com que uma parede ou um outro condutor me obriguem a diligências junto das simpáticas meninas do call-center da seguradora.
Quando chego à praia, ponho-me a apreciar a disposição geral do dia. Os profissionais estendem com primor a toalha sobre a areia que já escalda, passam protector nos ombros e na ponta do nariz, analisam com um pormenor clínico a orientação do sol e talvez ainda calculem de cabeça a variação de radiação ao longo do dia, de tão habilitados que os vejo a preparar o banho de sol e de mar. Eu, por mim, acompanha-os a estender a toalha, mas depois começo logo a desobedecer ao preceito. Ponho a mão em riste sobre a testa e vejo a multidão que me rodeia, divirto-me com as crianças que fazem castelos de areia irreconhecíveis, que mais parecem pudins que saíram achatados do forno, e daí a bocado ponho-me a soprar pressurosamente, julgo que até pelos ouvidos o faço, porque já estou farto de ali estar. Fruto da minha desobediência ao código de conduta do veraneio, lá colecciono outro escaldão.
Não fico verdadeiramente chateado se, porventura, há nuvens esparsas que interrompem o colóquio solarengo ou se alguém sacode a areia da toalha e os cristais ásperos me caem em cima. Aquilo que me deixa pior que estragado é quando a regra mais básica da convivência numa praia seja quebrada: a democracia.
De entre as poucas coisas que eu realmente admiro em ir à praia é que tenho muito dificuldade em distinguir, assim à primeira vista, ricos e pobres, filhos pródigos ou enjeitados. E isso agrada-me. Está ali toda a gente reunida com o mesmo fito, todos sentadinhos ou deitados, a trabalhar para o mesmo, numa sincera partilha de circunstâncias e de recursos. Dentro de mim algo se revolve quando vejo um marmanjo, normalmente aí pelos seus cinquentas, de panamá enterrado até às orelhas para disfarçar a calva e umbigo bem proeminente como se fosse uma câmara-de-ar sobre a barriga redonda, atravessar a praia, com a sua cadeirinha debaixo do braço. Depois do desfile, faz ele menção, como vi ainda no outro dia, de se sentar mesmo no centro do areal, de esticar a cadeirinha ao comprido e de se sentar bem esparramado, com o 24 Horas aberto de par em par, como se fosse uma janela escancarada para o conhecimento, e de ainda puxar de um cachimbo para o pôr prazenteiramente ao canto da boca, enquanto nós, os outros, temos de gramar a toalha a afundar-se na areia movediça.
Não sei como estas veleidades tão perturbadoras do Estado igualitário ainda são permitidas. O mesmo raciocínio moral que faz um esforço por analisar as etiquetas da roupa que compramos para saber se é de origem fidedigna tem de se rebelar contra estes atentados sem pudor ao bem-estar da nossa nação. Um movimento tem de nascer contra as cadeiras de praia, na praia, mesmo que isto pareça um contra-senso e que aqueles que as compraram se sintam lesados por ter de encerrá-las na dispensa, lá em casa.
Quanto ao senhor que despertou todo este acervo de considerações, pois bem, creio que ainda estará sentado numa praia qualquer deste país, a deliciar-se com as notícias do 24 Horas e as baforadas intermináveis que dá no seu cachimbo. Ficava mais descansado se lesse um épico ou uma antologia poética. Não sei porquê, mas temo que isso não vá acontecer.
Francisco Simões
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
História da contenda entre o meu buço e o Domingo Desportivo
De como o meu buço foi aselha em matérias de masculinidade e a minha mãe sofreu os seus primeiros reveses, por via da minha desobediência. História de um inultrapassável trauma de infância, porque é do princípio que a história deve começar.
Comecei a fazer-me um homem ainda antes da navalha gélida me desfazer as penugens imberbes da puberdade ou da minha voz deixar de ser um falsete insuportável. Não esperei pelos prenúncios da masculinidade para me julgar crescido e não creio, hoje, que a primeira vez que desfiz o buço tenha contribuído grandemente para esse sentido de invulnerabilidade que todos os homens gostam de reclamar diante do espelho e, depois, à primeira menina dilecta dos seus olhos e a todas as outras que vêm a seguir.
Antes que a biologia cumprisse todos os seus desígnios, já eu a fintava com uma desobediência lenta e daninha. Começou ela, a desobediência, a manifestar-se aí pelos seis, sete anos, quando elegi o Domingo Desportivo como o programa televisivo da minha devoção. A minha mãe bem desovava ordens em catadupa, recorria ao dó e ao si para tanto me fazer ver, com complacência, que aqueles não eram hábitos para os meninos da minha idade, como bem depressa me cerrava os dentes, com um carinho que só hoje sou capaz de compreender. Levei sempre a minha avante, ora porque fincava o pé e dizia que da frente da televisão não saía, ora porque esperava pelos roncos cavernosos do seu sono caído por um precipício abaixo, para logo em pontinhas de pés e enrolado até à cabeça num cobertor muito grosso, me enfiar nas reentrâncias deixadas pelas portas mal fechadas entre o meu quarto e a sala, onde estava a televisão.
O aparelho dessa altura era um Schaub Lorenz, um cubículo revestido a folheado que imitava madeira, de ecrã convexo, segundo os entendidos, um primor de tecnologia da época. Não acredito que fosse assim tanto, pois volta e meia avariava e deitava um cheiro a queimado pelas reentrâncias traseiras da caixa que me lembrava sempre os porcos chamuscados nas matanças. Era esse receptor que contribuía ainda mais para o meu sentido de adulto antes do tempo, porque à desobediência com venerava a minha mãe tinha eu de juntar doses improváveis de paciência para o adiantado da hora, em resposta à programação fatídica, e sem alternativa, com que a RTP-A ocupava a emissão, antes de chegar o programa de Lisboa. O ror de produções de qualidade duvidosa começava logo a seguir ao Telejornal, com os resumos poeirentos do Teledesporto, filmados pelos pelados dos Açores fora. Logo progredia o serviço público, nos seus intentos de entretenimento, com um concurso para toda a família ou um espectáculo de variedades, como há uns anos se chamavam certas galas. Culminava todo o esforço em agradar o telespectador com uma série americana de nomeada e pouco mais. Assim de repente, vêm-me à memória o Dallas e os Soldados da Fortuna.
Só lá para a meia-noite, quando os meus ombros tinham já escorregado pelo verniz da mesa abaixo vezes sem conta e o meu queixo tinha batido com estrondo no seu tampo maciço, é que entrava o genérico tão ansiado.
Mesmo quando o meu buço começou a despontar e os meus interesses, felizmente, se fizeram mais variados, permaneci fiel ao Domingo Desportivo e aos seus resumos alargados e detalhados do campeonato português e do então chamado “futebol lá de fora”. Esse epíteto sempre dava às ligas estrangeiras outro aprumo e habilidade que a nossa não tinha.
Para mim, o Domingo tinha obrigatoriamente de findar com o fecho de emissão e as bandeiras a flamejar ao som dos hinos, para que não houvesse cá dúvidas em matéria de soberanias e autonomias.
Continuei a ver o Domingo Desportivo com a mesma devoção, mesmo quando começaram a ser introduzidos os pormenores irrelevantes, como o público no estúdio, de cachecol ciosamente enrolado ao pescoço, as deliciosas imagens virtuais e os comentadores viperinos, esses sim muito dados a polémicas com muito pouco de real.
De há uns tempos para cá, o meu início de semana é sempre mais cinzento do que a segunda-feira que amanhece, mesmo quando o chumbo matinal ameaça trovejar. Desde que o futebol emigrou todo para TVI e que esta o retocou com as repetições sucessivas e dos mais variados ângulos daquelas jogadas que estão votadas ao limbo da dúvida e um painel de comentadores que, não sendo diferente de tantos outros, tem mais tempo de antena do que o futebol jogado, tenho sentido aquela confusão do luto. É um luto dos piores, sem morte previsível ou corpo presente, porque se limita a aniquilar os objectos ou as situações da nossa devoção, deixando-nos a tactear um pequeno vácuo.
Não tenho a ilusão de que hoje fosse achar os jogos de antigamente mais fulgurantes e espectaculares do que os actuais. Custa-me, por vezes, a acreditar que vibrei com certas jogadas e determinadas vitórias que mais pareciam a desossa de carcaças no matadouro. E os carniceiros, ainda por cima, eram todos da minha equipa.
Entretanto, querem convencer-me a todo o custo que sou consumidor e não adepto, que se quiser ver a bola tenho de pagar (e bem) e que se não quiser, bom, tenho de esperar como antigamente, mas sem direito a hinos emocionados no fim da emissão. Tenho feito uma opção difícil entre as duas soluções: nem uma, nem outra. Felizmente que se foi o bigode virgem e que hoje tenho a barba bem cerrada. Se assim não fosse, não sei se aguentaria acordar a cada segunda-feira, pela manhã. Por sinal, nesse dia raramente a faço.
Comecei a fazer-me um homem ainda antes da navalha gélida me desfazer as penugens imberbes da puberdade ou da minha voz deixar de ser um falsete insuportável. Não esperei pelos prenúncios da masculinidade para me julgar crescido e não creio, hoje, que a primeira vez que desfiz o buço tenha contribuído grandemente para esse sentido de invulnerabilidade que todos os homens gostam de reclamar diante do espelho e, depois, à primeira menina dilecta dos seus olhos e a todas as outras que vêm a seguir.
Antes que a biologia cumprisse todos os seus desígnios, já eu a fintava com uma desobediência lenta e daninha. Começou ela, a desobediência, a manifestar-se aí pelos seis, sete anos, quando elegi o Domingo Desportivo como o programa televisivo da minha devoção. A minha mãe bem desovava ordens em catadupa, recorria ao dó e ao si para tanto me fazer ver, com complacência, que aqueles não eram hábitos para os meninos da minha idade, como bem depressa me cerrava os dentes, com um carinho que só hoje sou capaz de compreender. Levei sempre a minha avante, ora porque fincava o pé e dizia que da frente da televisão não saía, ora porque esperava pelos roncos cavernosos do seu sono caído por um precipício abaixo, para logo em pontinhas de pés e enrolado até à cabeça num cobertor muito grosso, me enfiar nas reentrâncias deixadas pelas portas mal fechadas entre o meu quarto e a sala, onde estava a televisão.
O aparelho dessa altura era um Schaub Lorenz, um cubículo revestido a folheado que imitava madeira, de ecrã convexo, segundo os entendidos, um primor de tecnologia da época. Não acredito que fosse assim tanto, pois volta e meia avariava e deitava um cheiro a queimado pelas reentrâncias traseiras da caixa que me lembrava sempre os porcos chamuscados nas matanças. Era esse receptor que contribuía ainda mais para o meu sentido de adulto antes do tempo, porque à desobediência com venerava a minha mãe tinha eu de juntar doses improváveis de paciência para o adiantado da hora, em resposta à programação fatídica, e sem alternativa, com que a RTP-A ocupava a emissão, antes de chegar o programa de Lisboa. O ror de produções de qualidade duvidosa começava logo a seguir ao Telejornal, com os resumos poeirentos do Teledesporto, filmados pelos pelados dos Açores fora. Logo progredia o serviço público, nos seus intentos de entretenimento, com um concurso para toda a família ou um espectáculo de variedades, como há uns anos se chamavam certas galas. Culminava todo o esforço em agradar o telespectador com uma série americana de nomeada e pouco mais. Assim de repente, vêm-me à memória o Dallas e os Soldados da Fortuna.
Só lá para a meia-noite, quando os meus ombros tinham já escorregado pelo verniz da mesa abaixo vezes sem conta e o meu queixo tinha batido com estrondo no seu tampo maciço, é que entrava o genérico tão ansiado.
Mesmo quando o meu buço começou a despontar e os meus interesses, felizmente, se fizeram mais variados, permaneci fiel ao Domingo Desportivo e aos seus resumos alargados e detalhados do campeonato português e do então chamado “futebol lá de fora”. Esse epíteto sempre dava às ligas estrangeiras outro aprumo e habilidade que a nossa não tinha.
Para mim, o Domingo tinha obrigatoriamente de findar com o fecho de emissão e as bandeiras a flamejar ao som dos hinos, para que não houvesse cá dúvidas em matéria de soberanias e autonomias.
Continuei a ver o Domingo Desportivo com a mesma devoção, mesmo quando começaram a ser introduzidos os pormenores irrelevantes, como o público no estúdio, de cachecol ciosamente enrolado ao pescoço, as deliciosas imagens virtuais e os comentadores viperinos, esses sim muito dados a polémicas com muito pouco de real.
De há uns tempos para cá, o meu início de semana é sempre mais cinzento do que a segunda-feira que amanhece, mesmo quando o chumbo matinal ameaça trovejar. Desde que o futebol emigrou todo para TVI e que esta o retocou com as repetições sucessivas e dos mais variados ângulos daquelas jogadas que estão votadas ao limbo da dúvida e um painel de comentadores que, não sendo diferente de tantos outros, tem mais tempo de antena do que o futebol jogado, tenho sentido aquela confusão do luto. É um luto dos piores, sem morte previsível ou corpo presente, porque se limita a aniquilar os objectos ou as situações da nossa devoção, deixando-nos a tactear um pequeno vácuo.
Não tenho a ilusão de que hoje fosse achar os jogos de antigamente mais fulgurantes e espectaculares do que os actuais. Custa-me, por vezes, a acreditar que vibrei com certas jogadas e determinadas vitórias que mais pareciam a desossa de carcaças no matadouro. E os carniceiros, ainda por cima, eram todos da minha equipa.
Entretanto, querem convencer-me a todo o custo que sou consumidor e não adepto, que se quiser ver a bola tenho de pagar (e bem) e que se não quiser, bom, tenho de esperar como antigamente, mas sem direito a hinos emocionados no fim da emissão. Tenho feito uma opção difícil entre as duas soluções: nem uma, nem outra. Felizmente que se foi o bigode virgem e que hoje tenho a barba bem cerrada. Se assim não fosse, não sei se aguentaria acordar a cada segunda-feira, pela manhã. Por sinal, nesse dia raramente a faço.
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