quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Travessa de tomate assado

É uma invenção recente, simples, sem espinhas e bastante agradável para acompanhar um assado qualquer, carne ou peixe:

Numa travessa ponha tomate bem maduro, cortado em quartos. Misture pão cortado aos cubos. Regue com azeite q.b. e polvilhe tudo com sal, alho em pó e umas folhas de manjerona. Depois é só ir ao forno e deixar assar. Não pus queijo, mas suspeito que ficaria óptimo com esse "acrescento". Daí a meia-hora, estava pronto a servir. Dessa vez, acompanhou um bacalhau assado...

Nota: a receita ficou muito mais saborosa porque o tomate era biológico, do quintal do meu pai. Em suma, não tinha a calibragem adequada para ser vendido no mercado, tinha um formato um tanto ou quanto risível para os preceitos da UE, mas o sabor, bom, esse era incomparável. Talvez soubesse um pouco a fruto proibido.

Notas sobre um joelho bem esfolado

Muitos académicos empenhados em reescrever as suas angústias primitivas dedilharam tomos e mais tomos de psicologia infantil e juvenil até tornarem em verdade inquestionável que o ditame de todas as infelicidades se reduz aos anos iniciais da nossa vida. Avança a ciência psicológica e em sentido inverso recua a barreira temporal em que se forma o trauma. Significa isto que de acordo com os doutos especialistas da psicologia, está a vida determinada a partir dos primeiros meses de vida.
No meu tempo (cá está um acesso reumatóide que começa a fazer-se demasiado recorrente), os únicos traumas eram inscritos na memória pessoal quando dela podíamos fazer uso em toda a sua plenitude. Enfim, era pelo menos um direito que nos assistia. Não consigo enumerar todos aqueles de que me lembro, o que poderá ser bom sinal. Os clínicos menos conformados não deixarão, ainda assim, de rebater esta minha observação, dizendo que há qualquer sofrimento intolerável que terei reprimido e que, com certeza, explicará as minhas faltas naquelas quatro vertentes que o acto de contrição (lá está a culpa) ajudou a sintetizar, a saber, pensamentos, palavras, actos e omissões. Dito isto, apetece acrescentar que contra estas leituras psicológicas nada poderei fazer a não ser invocar o resignado, e muito conhecido, preso por ter cão e preso por não ter, pois se sofro é porque sofro, se não sofro é porque evito sofrer. Adiante.
Dizia eu antes destes redondéis que não conseguirei enumerar todos os meus traumas infantis, mas alguns subsistem bem vívidos em recordações ou até em cicatrizes e padecimentos. O primeiro que me vem à cabeça foi, literalmente, aquele que a abriu a meio. Estava eu pendurado num portão de ferro a olhar para o galinheiro que os meus pais conservavam, no quintal mais por devoção a um passado algures rural do que pelos proventos em ovos e respectivas omeletes, quando o dito cujo ganhou vida própria e decidiu desprender-se da parede. A queda teve todos os méritos de gravidade, a clínica e a da física que faz tender tudo para o centro da terra, embora a primeira, convenhamos, fosse mais ampliada pelo susto do que justificada por sequelas irreversíveis. Por estranho que possa parecer, tenho um certo orgulho no corte que se me abriu no cocuruto. Dessa maneira selei um dos meus primeiros actos de afirmação pessoal, pois a queda contrariou a voz da minha mãe, que andava por perto, e que por várias vezes me ordenou que parasse de balançar no raio do portão. Como nessa altura, continua ela a ter razão em muita coisa e por isso mesmo, dediquei-me a fazer balançar outros portões. Um dia hei-de voltar a cair e ela há-de voltar a ter razão.
Outro trauma da minha infância foi o da exposição continuada, quatro anos lectivos no total, às carteiras da Escola Primária Brianda Pereira, no Porto Judeu de Cima. Essa espécie de tortura refinada, porque prolongada no tempo e destinada a produzir os seus efeitos perniciosos apenas no longo prazo, prendia-se com o desenho do raio do móvel. Era ele maciço, com dois lugares abertos para um plano inclinado onde se punham os livros. No topo, escavada na madeira, havia uma cova para os lápis e para as canetas, embora a vermelha só pudesse ser usada a partir da terceira classe. Entre o meu espaço e o do meu colega havia um buraco. Diziam que era para a afiadeira que, à altura, dava pelo cognome de apara-lápis. No meu caso percebo porquê: raramente os meus lápis ficavam bem afiados, apesar das aparas serem mais que muitas. Bom, era a tal carteira tortuosa porque nunca ela se ajustou, em dimensão e proporção, às minhas pernas em contínuo crescimento. Creio até que o contrariou. Será por isso que hoje não tenho dois metros e dez e uma carreira plena de títulos no basquetebol ou no voleibol e que, de quando em vez, sinto uma dorzita na coluna, apesar de alguns entendidos em ergonomia reclamarem pelo regresso daqueles mastodontes às escolas.
Vem a recuperação dos meus traumas, pelo menos daqueles a que o meu inconsciente permite aceder, a respeito de há dias, enquanto andava de bicicleta, no auge do meu desequilíbrio, ter ido contra um passeio. Não houve queda aparatosa, seguida de fractura exposta, mas antes um joelho que saiu artisticamente esfolado de toda aquela falta de jeito. De início, lá se pôs o meu ego a labutar, cabeça para um lado e para o outro como as torres de controlo de um aeroporto, não tivesse um vizinho assistido de balcão a todo aquele número de circo. Pouco importava que o joelho debitasse sangue em bica, agora sentir-me enxovalhado pelas gentes das redondezas, isso é que nem pensar. Lá pedalei rua abaixo até a casa e enquanto a brisa fazia ferver o meu joelho dei todas as quedas que já tinha dado até àquele dia, sobretudo as mais desajeitadas, nos interstícios das peladinhas com os meus primos ou da apanhada no recreio, que dantes se chamava rolha ou pica. Nunca uma dor me fez sorrir tanto. Estive mesmo para protelar a água oxigenada, como se um compasso de espera pudesse contrariar a degenerescência biológica. Quando o ardor do desinfectante borbulhou minimamente sobre a ferida reconheci que o maior trauma humano se resume a entrar na idade adulta. Desse dia em diante, passei a preferir a carne viva a qualquer crosta quezilenta.

sábado, 1 de setembro de 2007

Receita da semana - feijoada instantânea

Vão ver que não é receita própria de grandes refinamentos, mas o resultado final tem os seus atributos! Fi-la hoje ao almoço e soube-me bem. Contra essa qualidade, pouco haverá a contestar.
Devo-a ao amigo que não sendo de sempre, é como se o fosse. Obrigadinho Ricardo.
A coisa não tem nada que saber. Tudo começa com um bom refogado com uma cebola média e bacon cortado aos cubos (pode-se juntar, também, carne picada, se se quiser que o prato tenha um pouco mais de substância, embora, por norma, não o faça).
Deixa-se a cebola alourar e a bacon fritar um pouco, durante cerca de 5 minutos, em lume médio, mexendo sempre.
Em seguida, junta-se uma lata de baked beans e molho de tomate q.b.. Tempera-se, de seguida, com um pouco de sal e alho em pó. Deixa-se cozinhar entre 10 a 15 minutos, para que o refogado e o molho de tomate liguem, mexendo sempre e retificando o tempero, sempre que necessário.
À parte, coze-se um pouco de arroz branco para servir com o feijão.
Não é de pacote, mas é quase, e mesmo não o sendo (totalmente), não deixa de ser rápido...

Bom apetite!

Digressões em torno dos objectos - os meus óculos escuros

Considerações acerca de uns certos óculos escuros que muito têm contribuído para reflectir de forma avulsa acerca do estauto social e das razões menos legítimas como o legitimam. Lamento paralelo sobre a minha distracção congénita que não dá sinais de poder ser erradicada.


Há coisas que são marcantes na vida de uma pessoa. Umas são decretos da biologia, umas quantas têm o cunho do azar, uma boa parcela são produto da estupidez. Algumas serão da nossa lavra, mas outras não encontram a mais vaga reminiscência no brio pessoal, pois costuma ser atribuída ao acaso. Gostaria de pensar que aquilo que recentemente me aconteceu se deve mais ao destino do que a uma decisão pessoal.
Há uns tempos comprei uns óculos escuros. Fi-lo com a mesma reflexão que um ponta-de-lança revela à beira da linha de golo, ou seja, nenhuma. É verdade que ainda fiz duas investidas às lojas da especialidade, que experimentei um ou outro modelo e que franzi o nariz e a testa como os miúdos pouco convencidos na idade dos porquês. No fim, fui-me embora, certo que lá não voltaria.
O problema que se me punha não ficou, porém, resolvido. Na verdade, até precisava do raio dos óculos, por causa destes olhos sensíveis à radiação que tenho. Movido pelo ímpeto tax-free, lá fui eu a uma loja de aeroporto, num dos meus regressos à Terceira. Reparei em uma ou duas hipóteses aceitáveis em termos de preço e design, voltei a simular caretas infantis e, meio por acaso, entre a parafernália de aros de todas cores, materiais e feitios imagináveis, lá estava o modelo por que tanto ansiava. Não foi um amor à primeira vista, bem pelo contrário. Estes óculos eram bem diferentes dos que habitualmente usava e assentados no nariz produziam em mim uma dissonância qualquer, uma estranheza difícil de domar. Movido por essa sensação de acto fora de controlo e pleno de consequências acabei por trazê-los, prometendo a mim mesmo que me habituaria à ideia ou que odiaria aqueles óculos eternamente, que não há nada como um bom desafio ou que, se calhar, tantos rodriguinhos eram ridículos quando não fizera mais do que uma banal compra, utilitária sobretudo, tendo em conta os excessos do solstício de Verão.
Mal sabia eu que com a minha singela compra acabara de subir uns tantos degraus da pirâmide social. Não se deveu tal promoção ao critério mais óbvio que seria o preço real ou, pelo menos, imaginado do produto, mas antes à boa-vontade alheia. Nos dias seguintes multiplicaram-se os comentários ao meu novo acessório. Algumas pessoas descobriram-me laivos de inspector policial que eu desconhecia por completo ter, pois nunca pensei reunir os atributos necessários, a saber, desconfiança permanente, fascínio pela sombra ou gosto pelos rendilhados próprios das conspirações. Outras, ainda que claramente desconcertadas com a minha escolha, ao ponto de não me reconhecerem na rua, rapidamente renderam-se às evidências, enaltecendo o estilo e o bom-gosto revelados na minha escolha. Certos olhares mais penetrantes creio que cobiçaram o raio dos óculos.
Independentemente da razão invocada, os meus óculos não passaram despercebidos. Senti um inchaço narcísico tal que agora, admito, já não vivo sem os meus Ray-Ban. Tenho provas contundentes do que digo. No outro dia, reparei que não sabia deles. Daí a um drama em vários actos, com direito a cenografia grandiosa, ponto impecável e representação soberba, foi um instantinho. Uma, duas, três verificações a cada gaveta e pasta lá em casa, o obsessivo que há dentro de mim a crescer a cada minuto que passava nas suas múltiplas recriminações, depressa transformadas em insulto e canelada no ego, e o estatuto social tão abruptamente perdido tal como acabara de ser conquistado. Os óculos escuros lá apareceram, já não sei muito aonde, para ser fiel aos factos e à minha distracção congénita. Por ser assim tão distraído, não tive outro remédio que não fosse estabelecer um plano de acção, para saber sempre onde estão os meus óculos escuros. Têm os ditos cujos de ser arrumados dentro do estojo sempre que são usados. Por sua vez, o estojo tem lugar certo numa das bolsas interiores da minha pasta. Já a pasta tem de ficar esquecida, aliás, arrumada na sala, ao lado do aparador, mesmo no enfiamento da porta da rua. Desconfio que toda esta minha planificação não vá servir de muito. Já fiz o mesmo com chaves, carteiras e cartões, os de crédito e os de débito, incluindo o Bilhete de Identidade, também ele tributário de créditos e de débitos, se bem que de outra natureza. Há uns quantos que ainda não reavi. Felizmente, o Estado que tanto zela por mim lá me deu outra oportunidade incomparável de existir neste país, emitindo várias vezes o meu Bilhete de Identidade. Todavia, agora que subi de posto na hierarquia social, quero continuar a existir dessa maneira, mesmo que não possa reclamar méritos assinaláveis para tal e que seja refém, doravante, dos meus óculos. Acho que não tarda muito e começarei a pô-los na mesa-de-cabeceira para dormir mais descansado. Daqui a uns anos, ponho a dentadura dentro de um copo com água a fazer-lhes companhia. Por essa altura, espero ser menos os objectos que uso.