Há uns tempos, fui alertado para as inconveniências que um bom arroz de pato caseiro pode representar. A começar, claro, pela apanha do dito cujo, que sendo uma ave hábil e escorregadia, obriga a procedimentos complexos, até que uma mão lhe cace o pescoço.
A parte de cegar o pato com umas luzes potentes bem instaladas num capacete de mineiro é a minha preferida.
Como sou duro de rins e não conheço mineiros que emprestem o referido capacete, costumo optar pelo frango, que está ali, no talho, mesmo à mão.
Esta receita de arroz de frango no forno é surpreendentemente bastante aromática e, ao mesmo tempo, simples de preparar.
O frango para este arroz é cozido num caldo aromatizado com uma uma cenoura, uma cebola, alho francês e um caldo de galinha.
Depois de cozido, é tempo de desfiá-lo e de reservá-lo. Portanto, meus senhores, mãos à obra! Enquanto o caldo em que o frango foi cozido continua a fervilhar, prepara-se um refogado com dois dentes de alho e uma cebola. Depois, quando a cebola do refogado fica translúcida, junta-se a medida de arroz (aí umas duas canecas), bem lavado e escorrido.
A seguir, salteia-se o arroz no refogado durante um bocadinho e junta-se o caldo a ferver (o dobro da medida de arroz) e, por fim a carne. Depois do arroz ter cozido, transfere-se tudo para um pirex untado com manteiga e colocam-se por cima algumas fatias de bacon.
Vai tudo ao forno, que já estava bem quente, para acabar de cozer e dourar à superfície.
No fim, para decorar e dar um saborzinho, nada como polvilhar a travessa com uns pickles cortados em pedacinhos.
Bom apetite!!!
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
domingo, 16 de dezembro de 2007
Panaceias e atum
Manifesto contra a ditadura do atum como solução contra todas as dúvidas gastronómicas à beira do almoço ou do jantar. Atenção, também, ao bacalhau e a outros que tais.
Uma das manifestações bastante comuns da panaceia tem a ver com a convicção dos profissionais de que com a sua visão teórica do mundo irão resolver todos os problemas da humanidade.
Se perguntar a um médico como se presta ele a varrer as desgraças humanas da face da Terra, por certo que, em menos de nada, lhe será descrito um programa de prevenção das doenças cardiovasculares ou de educação para a saúde. No fim, enquanto passa o prestimoso e indispensável recibo, o senhor doutor ainda acrescentará que a sua solução será quanto baste para erradicar as doenças em apenas duas gerações.
Fale-se com um economista sobre como faria ele face ao problema da felicidade, já que hoje em dia parece ela mais problemática do que a infelicidade, e afiançará o dito cujo que não haverá nada como a sua tríade magnífica: crescimento económico, redução dos impostos e aumento do consumo. Para mim, que não percebo grande coisa da matéria, poderia esse ou outro economista apresentar-me estes três termos noutra ordem ou até um pacote com outros três chavões da área financeira que eu aceitaria, com a mesma bonomia e crença num futuro radioso. Para dizer a verdade, de acordo com as grandes teorias da economia, nem sei se crescimento económico, redução de impostos e aumento do consumo serão conjugáveis num mesmo cenário temporal. Mas isso já é problema meu, pois segundo um certo bancário, nem consigo ler extractos da minha conta corrente. Adiante.
A panaceia no seu pior nem é propriamente esta convicção corporativa que faz um conhecimento profissional valer sobre a utilidade de todos os outros. O seu lado verdadeiramente maléfico revela-se no modo como ela usualmente se organiza, pois estou certo que sua sequência é sempre a mesma. Invarivelmente, começa a panaceia a manifestar-se na contratualização de um crédito. Claro que nem todos os créditos são daninhos da mesma maneira e os que mais contribuem para a entrada na etapa seguinte da panaceia são aqueles fáceis, que pelo facto de chegarem pela internet ou pelo telefone já seriam suficientemente suspeitos para que metade das pessoas desconfiasse dos seus méritos. Quando o dinheiro volta a faltar para o essencial, tal e qual como dantes, com a agravante de agora ainda ter de se pagar os juros exorbitantes, não há problema. Arranja-se outra panaceia qualquer. Os mais entendidos costumam optar por complexos vitamínicos ou aqueles produtos com toneladas de l-casei imunitass ou bifidus activus, que aumentam as defesas imunitárias. Essa é uma daquelas soluções mágicas que, por teimosia, não é posta ao serviço do bem-comum. É que a acreditar em semelhante poder e tão invejável eficácia na produção de defesas, dispensariam bem os nossos polícias de usar coletes à prova de bala. Já pensaram bem se todos os membros das forças policiais tomassem um iogurte destes, todos os dias, logo pela alvorada, o dinheiro que já não se tinha poupado a este país? Ora aí estava uma maneira astuta e aceitável de reduzir o défice público.
Quando não resulta o complexo vitamínico ou o iogurte maravilha, chega-se à etapa do corte cego. Contam-se os pretos no fundo da carteira, revista-se o fundo dos bolsos uma e outra vez e não se vislumbra outra solução que não seja a de assegurar que o dinheiro dá, pelo menos, para a conta dos anti-depressivos ao fim do mês. Consta que o comprimido diário é quase tão poderoso como o Dr. Phil, com a vantagem de não implicar tristes encenações de irresolúveis dramas familiares, diante das câmaras televisivas. Acresce que a sua utilização até é fácil. Basta tirá-lo da carteira e empurrá-lo pela goela abaixo com um copinho de água, que pode ser da torneira, o que pelo menos por esse lado sai bastante barato. Se nem com anti-depressivos a coisa lá for, há duas soluções possíveis. A mais drástica costuma ser arranjar também ansiolíticos e fazer um belo cocktail antes do jantar...com água, entenda-se, sempre com água, porque não há guito para mais. A outra sai mais cara e também mais difícil para quem está na mó de baixo, e consistirá em ir com regularidade ao ginásio. Com um orçamento curto, entra-se na necessária simplificação. Em vez de ir ao ginásio ponha-se a caminhar, a andar a pé, entenda-se, ali pelo molhe da marina afora ou por essas canadas acima e abaixo. Para aqueles que se aborrecem com as caminhadas, não há problema, porque na Terceira sempre pode obrigar-se a correr pelos caminhos dessas freguesias, à frente dos galhos de um touro.
Tenho sido avesso a complexos vitamínicos e aos anti-depressivos, mas um dia hei-de experimentar, de preferência tomados ao mesmo tempo, antes de me pôr a correr à frente dos galhos de um touro. Temo é que essa não seja a solução indicada para as minhas maleitas, até porque no que toca a touradas, não sou particular entusiasta. Já as caminhadas, até as faço de vez em quando, mas se calhar tenho de prometer que se não as fizer regularmente, para o ano tenho de ir a pé à Serreta, o que será bem mais penoso. O que tenho mesmo de evitar é a minha tendência para resolver toda e qualquer refeição com atum. É verdade que até tento prepará-lo das mais variadas maneiras, em saladas, numa maionese, com massa ou com um belo molho de tomate. Acontece que enquanto me acomodo a essa tendência, mais e mais alastra a minha preguiça imaginativa. E como a preguiça imaginativa costuma legitimar outras panaceias, tenho de me convencer que quanto mais usar atum para resolver as minhas refeições, mais perto me encontro de recorrer aos anti-depressivos. Meus amigos, nem mais nem menos, estamos perante a ameaça de um ciclo vicioso. Acreditem, não tenho nada contra os pescadores que apanham o atum no alto-mar ou a indústria transformadora, que faz conservas de grande qualidade. Não é contra eles que tenho de me insurgir, pois cumprem apenas com o seu dever. É contra mim mesmo que tenho de me rebelar. Já agora, que o Natal se aproxima, tenho de tomar cuidado com outras panaceias gastronómicas. Se calhar começo por evitar o bacalhau, não acham?
Uma das manifestações bastante comuns da panaceia tem a ver com a convicção dos profissionais de que com a sua visão teórica do mundo irão resolver todos os problemas da humanidade.
Se perguntar a um médico como se presta ele a varrer as desgraças humanas da face da Terra, por certo que, em menos de nada, lhe será descrito um programa de prevenção das doenças cardiovasculares ou de educação para a saúde. No fim, enquanto passa o prestimoso e indispensável recibo, o senhor doutor ainda acrescentará que a sua solução será quanto baste para erradicar as doenças em apenas duas gerações.
Fale-se com um economista sobre como faria ele face ao problema da felicidade, já que hoje em dia parece ela mais problemática do que a infelicidade, e afiançará o dito cujo que não haverá nada como a sua tríade magnífica: crescimento económico, redução dos impostos e aumento do consumo. Para mim, que não percebo grande coisa da matéria, poderia esse ou outro economista apresentar-me estes três termos noutra ordem ou até um pacote com outros três chavões da área financeira que eu aceitaria, com a mesma bonomia e crença num futuro radioso. Para dizer a verdade, de acordo com as grandes teorias da economia, nem sei se crescimento económico, redução de impostos e aumento do consumo serão conjugáveis num mesmo cenário temporal. Mas isso já é problema meu, pois segundo um certo bancário, nem consigo ler extractos da minha conta corrente. Adiante.
A panaceia no seu pior nem é propriamente esta convicção corporativa que faz um conhecimento profissional valer sobre a utilidade de todos os outros. O seu lado verdadeiramente maléfico revela-se no modo como ela usualmente se organiza, pois estou certo que sua sequência é sempre a mesma. Invarivelmente, começa a panaceia a manifestar-se na contratualização de um crédito. Claro que nem todos os créditos são daninhos da mesma maneira e os que mais contribuem para a entrada na etapa seguinte da panaceia são aqueles fáceis, que pelo facto de chegarem pela internet ou pelo telefone já seriam suficientemente suspeitos para que metade das pessoas desconfiasse dos seus méritos. Quando o dinheiro volta a faltar para o essencial, tal e qual como dantes, com a agravante de agora ainda ter de se pagar os juros exorbitantes, não há problema. Arranja-se outra panaceia qualquer. Os mais entendidos costumam optar por complexos vitamínicos ou aqueles produtos com toneladas de l-casei imunitass ou bifidus activus, que aumentam as defesas imunitárias. Essa é uma daquelas soluções mágicas que, por teimosia, não é posta ao serviço do bem-comum. É que a acreditar em semelhante poder e tão invejável eficácia na produção de defesas, dispensariam bem os nossos polícias de usar coletes à prova de bala. Já pensaram bem se todos os membros das forças policiais tomassem um iogurte destes, todos os dias, logo pela alvorada, o dinheiro que já não se tinha poupado a este país? Ora aí estava uma maneira astuta e aceitável de reduzir o défice público.
Quando não resulta o complexo vitamínico ou o iogurte maravilha, chega-se à etapa do corte cego. Contam-se os pretos no fundo da carteira, revista-se o fundo dos bolsos uma e outra vez e não se vislumbra outra solução que não seja a de assegurar que o dinheiro dá, pelo menos, para a conta dos anti-depressivos ao fim do mês. Consta que o comprimido diário é quase tão poderoso como o Dr. Phil, com a vantagem de não implicar tristes encenações de irresolúveis dramas familiares, diante das câmaras televisivas. Acresce que a sua utilização até é fácil. Basta tirá-lo da carteira e empurrá-lo pela goela abaixo com um copinho de água, que pode ser da torneira, o que pelo menos por esse lado sai bastante barato. Se nem com anti-depressivos a coisa lá for, há duas soluções possíveis. A mais drástica costuma ser arranjar também ansiolíticos e fazer um belo cocktail antes do jantar...com água, entenda-se, sempre com água, porque não há guito para mais. A outra sai mais cara e também mais difícil para quem está na mó de baixo, e consistirá em ir com regularidade ao ginásio. Com um orçamento curto, entra-se na necessária simplificação. Em vez de ir ao ginásio ponha-se a caminhar, a andar a pé, entenda-se, ali pelo molhe da marina afora ou por essas canadas acima e abaixo. Para aqueles que se aborrecem com as caminhadas, não há problema, porque na Terceira sempre pode obrigar-se a correr pelos caminhos dessas freguesias, à frente dos galhos de um touro.
Tenho sido avesso a complexos vitamínicos e aos anti-depressivos, mas um dia hei-de experimentar, de preferência tomados ao mesmo tempo, antes de me pôr a correr à frente dos galhos de um touro. Temo é que essa não seja a solução indicada para as minhas maleitas, até porque no que toca a touradas, não sou particular entusiasta. Já as caminhadas, até as faço de vez em quando, mas se calhar tenho de prometer que se não as fizer regularmente, para o ano tenho de ir a pé à Serreta, o que será bem mais penoso. O que tenho mesmo de evitar é a minha tendência para resolver toda e qualquer refeição com atum. É verdade que até tento prepará-lo das mais variadas maneiras, em saladas, numa maionese, com massa ou com um belo molho de tomate. Acontece que enquanto me acomodo a essa tendência, mais e mais alastra a minha preguiça imaginativa. E como a preguiça imaginativa costuma legitimar outras panaceias, tenho de me convencer que quanto mais usar atum para resolver as minhas refeições, mais perto me encontro de recorrer aos anti-depressivos. Meus amigos, nem mais nem menos, estamos perante a ameaça de um ciclo vicioso. Acreditem, não tenho nada contra os pescadores que apanham o atum no alto-mar ou a indústria transformadora, que faz conservas de grande qualidade. Não é contra eles que tenho de me insurgir, pois cumprem apenas com o seu dever. É contra mim mesmo que tenho de me rebelar. Já agora, que o Natal se aproxima, tenho de tomar cuidado com outras panaceias gastronómicas. Se calhar começo por evitar o bacalhau, não acham?
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