sábado, 27 de outubro de 2007

Bróculos com molho de queijo fresco

Ando particularmente arredado de muitas coisas que são do meu apreço. Entre alguns dos passatempos muito sérios em que não me tenho empenhado, um é a culinária. Ando com uma certa saudade de dar a devida utilidade às panelas aqui por casa, seja por via da curiosidade ou então do mais profundo denodo (quando se trata de uma receita já mais dominada e que requer um certo brio para que saia a preceito, como de costume).
De maneiras que esta semana não me ocorre nada melhor do que um acompanhamento jeitoso para um grelhado, seja ele peixe ou carne, fácil de fazer, mas a que não falta um certo requinte. É esse, aliás, o destino das coisas simples, são ao mesmo tempo leves e perfeitas.
Quanto às minhas lamentações, vou ter que arranjar forma de as remeter ao esquecimento. Prometo que vou tentar!

Lavam-se os bróculos depois de cortados. Cozem-se com um pouco de sal. À parte, numa frigideira, derrete-se um pouco de manteiga. Assim que esta derreta, junta-se queijo fresco creme e espera-se que derreta também. Quando a manteiga e o queijo fresco creme estiverem bem ligados, tempera-se com umas gotinhas de limão. De seguida, cobre-se os bróculos com o molho e está pronto a servir.
Para aprimorar a receita, nada como juntar ao molho um punhado de frutos secos (amêndoas ou pinhões). Fica delicioso.

Dá na televisão, mas é na Sporttv

De como a mesma palavra pode expressar ideias diferentes e como outras, pequeninas e singelas, alteram o final de uma história. Algures, os canais codificados são esconjurados.

Quando aprendi na escola as conjunções, tive a nítida sensação que a gramática, para mim, era assunto encerrado. Finalmente estava ali um ensinamento absoluto, que condensava todos os anteriores, ao ponto de lhes retirar importância ou novidade. Essa sensação não era inédita. Já tinha passado pelo mesmo quando no segundo ciclo aprendi a fazer as árvores que apartavam o sujeito dos respectivos predicados e complementos, se por acaso este tivesse o mérito de os mostrar. O mesmo sucedeu quando, na matemática, dominei o teorema de pitágoras ou as enaquações. Contas feitas, as da matemática e as da vida, o deslumbramento foi algo intrínseco a tantas descobertas que, sempre que uma se impunha, logo eu pensava que essa era, porventura, aquela suprema, que condensava todos os enigmas da criação do mundo.
No caso particular das conjuções, pareceu-me sobretudo brilhante, e ao mesmo tempo aterrador, que umas pequeninas palavras colocadas entre duas orações pudessem sintetizar com aquele desembaraço tantas emoções e peripécias. Daí a perceber um jogo de fatalidades nos exercícios que a professora de português nos mandava para casa não demorou muito. Com a ligeireza, direi mesmo a displicência de uma escolha fortuita, tratava eu de ir a uma tabela que agrupava as conjunções em copulativas, adversativas, conclusivas, disjuntivas e explicativas e logo me punha a inventar catástrofes ou finais felizes. Creio que essa foi a primeira e única vez que me senti poderoso. Mas convenhamos que era fácil, tratava-se de uma simples luta entre ímpetos adolescentes e um caderno de argolas pautado, ainda em branco.
Ensinou-me essa experiência muita coisa, a começar pelos rigores gramaticais. Felizmente que não se ficou por aí a lição, se bem que a professora, uma mulher denodada, com certeza, como tantos outros professores, não estivesse verdadeiramente empenhada em que retirasse conclusões morais de matéria tão inócua. A verdade é que acabei por fazê-lo, não tanto pelo seu empenho no meu domínio correcto da língua, mas antes porque se multiplicaram os exemplos à minha volta que me ajudaram a elaborar semelhantes raciocínios.
A minha labuta interna no que ao uso de conjuções diz respeito tem sido todo posto na contradição entre as copulativas e as adversativas. Uso as primeiras e vejo os opostos a dar alegramente as mãos, com juras de fidelidade e promessas de ajuda mútua, até ao ponto final. Uso as segundas, e felizmente vejo um desacordo, uma ligeira troca de argumentos, talvez um duelo de cavalheiros, com a respectiva escolha de armas e um ponto de exclamação a condizer. Se vejo as pessoas insistirem nas conjunções copulativas, começo a suspeitar das suas verdadeiras intenções e logo me convenço que há por ali uma ditadura de politicamente correcto. Se, porventura, vejo a repetição mecânica das conjunções adversativas, convenço-me que se acumula, rapidamente, um gosto congénito pela contradição persistente, o que volta a aborrecer-me.
Como algo em excesso não é um problema novo e as suas consequências são muitas e variadas, embora ultimamente só se fale na obesidade, vejo que o meu fascínio pelas conjuções não se prenderá, também, com o facto de uns serem mais solidários e outros mais contraditórios. O que me causa uma certa perplexidade é quando a conjução é usada, mas o sentido da frase se despista por um atalho qualquer.
O exemplo bem claro do que digo é aquele que transcrevi para o título: o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv. Ora bem, postas numa contenda entre si, por força da artimanha daquele mas, o interlocutor que se debata com semelhante afirmação e que queira percebê-la em toda a sua extensão vê-se um tanto confundido. É que assim enunciada, esta afirmação põe-nos perante um primeiro paradoxo: ou a televisão não é televisão ou então é a Sporttv que não o é, pois a primeira não pode ser o contrário da segunda. Mas mais alcança esta análise fria, à luz de pressupostos gramaticais, tabelas lógicas e outros tantos princípios que se forem inventando para pôr ordem nesta nossa cabecinha. É que poderei eu ou qualquer outra pessoa ser também tentado a pensar que esta frase significa que o jogo dá na televisão, mas que esta por si só, canal generalista, ao vivo e a cores, como alguns se contentavam até há uns tempos, já não basta. Televisão a sério, como dever ser, é a Sporttv.
O que vale é que a comunicação é muito mais que palavras. O timbre, a disposição dos rugas, a própria dilatação das pupilas denuncia logo o que queremos verdadeiramente dizer. A frase em causa, do ponto de vista lógico, não poderia ser menos certeira, mas o que se pretende dizer, isso aí é do domínio comum, universal, mesmo. Quando alguém se põe a dizer que o jogo dá na televisão, mas é na Sporttv, a entoação tristonha significa que lá se vai encostar a orelha outra vez ao transístor ou então que é preciso rumar ao café e ser bafejado pela sorte de o receptor estar ligado no jogo que se quer ver na Sporttv 1 e não a partida que à mesma hora se joga na Sporttv 2. Tenho a nítida sensação que vou ouvir o mesmo comentário mais vezes. Aliás, estou mesmo certo que o vou repetir com alguma frequência. Ainda bem que, por enquanto, somos uma maioria.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

receita da semana - frango assado no forno com molho de mostarda

Esta é talvez uma das receitas que mais despertou em mim a veia culinária. Claro que por aqui há dedo da mãezinha, que soube muito bem "desviar-me" para os lados da cozinha. O seu segredo: cozinhava (e cozinha) bem e convidava-me para aqueles lados da casa com os aromas que as suas mãos sabem inventar.

Esta receita é daquelas que exige paciência, não por ser difícil, mas porque o segredo está numa cozedura lenta, paciente e bem assistida, como se verá.
Começa-se por esfregar os frangos inteiros com sal grosso. Depois de estarem bem massajados, coloca-se um caldo de galinha e meio limão na cavidade de cada frango, de onde se retiram os miúdos (que depois podem ficar para a canja).
Em seguida, os frangos são regados com o molho de mostarda. Para cada dois frangos, o molho consiste em meia barra de mateiga, pelo menos uma cabeça de alho, uma folha de louro, massa malagueta a gosto e, claro, mostarda (um a dois frascos). Estes ingredientes devem, previamente, ir ao lume, até a manteiga ligar com a mostarda.
O molho não deve ser colocado todo de uma vez. Ao longo da cozedura, é preciso ir regando os frangos à medida que estes vão sendo virados, para assarem bem de um lado e de outro.
Ao fim de, pelo menos, duas horas (talvez mais um pouco), os frangos estão prontos a servir.

Nota 1: Será importante não deixar o frango num tabuleiro do forno que esteja muito próximo do lume, pois o molho tem tendência a secar muito rapidamente, acabando mesmo por queimar.

Nota 2: Para acompanhar vale tudo. Sugiro o arroz branco (escolha óbvia) mas um puré de batata, com queijo parmesão, não fica nada mal na fotografia.

Intimidades

De como o conhecimento mútuo não pode ser mensurado apenas pelo tempo. Os reducionistas dirão que é apenas uma questão de tomates. E vai daí, talvez seja.

Uma das tarefas que mais pôs em causa a minha permanência na escola foi o picotado. Nunca me dei com a exigência de reduzir as margens de brinquedos, bonecos sorridentes e frutas gordas e sumarentas a uma profusão de pontos precisos, furadinhos uns atrás dos outros. Picotar as extremidades do desenho ou da figura ainda era o menos, pois na primeira parte dessa tarefa um tanto meticulosa para o atabalhoamento dos meus seis anos, até nem em saía mal. O desenho ficava bem recortadinho, pronto a ser arrancado ao resto do papel que no fim daquela árdua façanha restaria no canto da carteira como se fosse a pele enjeitada de um animal.
O pior era quando a minha destreza canhota, tanto a manual como a dos instintos, se punha a desfazer o picotado propriamente dito. O descalabro que logo se reunia valia-me as mais veementes reprimendas por parte das minhas professoras, indignadas com a minha falta de jeito para as artes manuais. O pior nem era ouvir aqueles raspanetes, pois eram perfeitamente justificados. Bem vistas as coisas, talvez ainda fossem demasiado brandos, embora não creia que juntar-lhes virulência pudesse ter despertado em mim qualquer ímpeto artístico. O pior era mesmo o sentimento de culpa por todos os dias cometer uma qualquer atrocidade. Se não era um peixe que ficava de guelra palpitante e olho lancinado de dor, porque lhe arrancara uma barbatana, era uma menina que levava as mãos à cara para esconder a vergonha de quem tinha acabado de ficar sem uma trança. O meu colega do lado, já não lembro bem quem, ficava a rir-se de mim e da menina.
Eu e esse meu colega do lado crescemos, mas não acredito que ele se tenha tornado mais sensível. Passado tanto tempo, vivo mais descansado por saber que um dia, quando tiver um filho, ele não vai ter de picotar figuras e desenhos na escola. Algures, o esclarecimento dos pedagogos percebeu que os picotados eram uma das mais inúteis tarefas escolares. Felizmente que há maneiras e maneiras de picotar e que umas são bem mais curiosas, ainda que sejam, também, mais difíceis de dominar.
Todos sabemos de uns quantos felizardos que sabem muito bem definir as margens dos nossos interesses e manias, que logo nos topam os defeitos ou as virtudes, como se vissem em nós aquelas instruções dos pacotes ou das margens dos antigos cupões dos concursos, com um tracejado à frente dos dois bicos de uma tesoura, a assinalar por onde se deve recortar. Alguns são mesmos mestres em vencer as nossas defesas ou uma certa dose de timidez, para logo nos encontrar a abertura fácil da alma.
Tenho conhecido algumas dessas pessoas que o venerando senso-comum insiste em reconhecer como aqueles seres capazes de, em menos de nada, nos fazer um raio-x. Ora, perante esta definição simples da inteligência emocional costumo levantar algumas objecções, primeiro porque rejeito tudo quanto faça lembrar o cheiro a éter, mesmo que vagamente, depois porque aquela sensação de estar tão despido que até me vêem os ossos também não me agrada particularmente. Além disso, é como se a responsabilidade dos encontros fortuitos fosse apenas minha, quando afinal, nem que seja por uma conjugação de acasos, a outra pessoa também lá esteve e se predispôs a analisar-me.
O sucesso causado por uma primeira impressão é proporcional à sensação de, por alguma razão, logo ali, olhos nos olhos, sentirmos que se criou uma intimidade repentina, mas com fundamento. É nessas alturas que alguém decide seguir o nosso picotado e nos descobre a tal abertura fácil. Daí em diante, é de esperar que façam gato-sapato de nós.
Há uma senhora vendedora no mercado que soube encontrar esse meu sistema de abertura fácil. Daí a fidelizar-me como cliente da sua banca foi o tempo do pagamento, do respectivo troco e das promessas de regresso no fim-de-semana seguinte. Tudo sucedeu num Sábado de manhã em que andava a rondar a banca da vendedora. Sei que tinha uma listinha amarrotada no bolso ou nas traseiras da minha memória, mas o meu intuito verdadeiro e mais elaborado era o de comprar tomate. A fruta poderia ter a calibragem mais variada, os legumes podiam ser mais ou menos frescos, mas já o tomate, bom, esse tinha de corresponder a requisitos bem precisos. Como o queria assar no forno, sabia que tinha de estar bem maduro e que tinha de ser bem redondo para ficar bonito na travessa. Andava eu por ali a cirandar havia já um bom bocado e a senhora olhava-me atentamente, na azáfama do atendimento aos sucessivos fregueses. Percebi que ela estava à espera de encontrar uma nesga de tempo para me dizer algo, pelo que me demorei mais um bocado, entre a análise clínica a um raminho de salsa e a verificação à consistência de um par de pêssegos. Assim que pôde, o indicador da senhora chamou-me com um ar descarado de conluio. Eu hesitei, mas depois de farolar em redor para ver se ninguém nos topava, tornou ela a chamar-me. Como não via perigo, mas também não reconhecia necessidade de tanto segredo, continuei um bocado indeciso. Por fim, lá avancei e assim que cheguei ao outro lado da bancada, logo a vendedora me perguntou retoricamente, ao puxar de um cesto escondido sob a bancada:
- É isto que procura, não é verdade?
Sei que textualmente, a pergunta não foi esta, mas isso pouco interessava. O que realmente interessava é que lá estava ele, redondinho, bem vermelho, pronto a ir ao forno, o tomate por que eu ansiava. A senhora sorriu triunfante, certa que o seu gesto fora preciso. Eu, por mim, acenei com a cabeça, já depois de ter posto um olho nas redondezas, para me certificar, também, que ninguém nos vigiava. No fim, agradeci, mas contas feitas, senti que continuava em dívida com a senhora. Essa tinha sido, afinal, a sua maior conquista. Daí em diante, tornei-me cliente assíduo daquela banca de mercado, para saldar esse e outros favores de uma intimidade simples, mas eficaz, recortada com precisão no picotado dos meus insondáveis desejos. Ultimamente, a conta por pagar acumulou juros. Não tenho lá ido, como era hábito ao Sábado de manhã. Vou arranjando desculpas, umas mais plausíveis, outras sem sentido. No Inverno vou voltar a querer tomate do bom. Nessa altura, tenho a certeza que vou voltar.